Provavelmente você conhece a baunilha, já comeu algo que leva
baunilha, gosta do seu aroma adocicado e sabor peculiar que,
segundo dizem, uma vez experimentado nunca é esquecido. Difícil
quem não goste.
Mas, você sabia todo esse aroma e sabor que estamos habituados a
encontrar em doces, sorvete, bolos, bebidas, incensos, produtos
de beleza e tantas outras coisas, provém do fruto de uma
orquídea?
Pode acreditar! Aquelas favas escuras e fininhas, que perfumam
de longe, vêm, sim, de alguns tipos de orquídeas tropicais cujo
gênero, justamente por causa delas, acabou sendo batizado
Vanilla. Elas são as únicas orquídeas que servem à alimentação
humana e com interesse comercial fora do contexto ornamental.
A palavra vanilla deriva de "vainilla" (vagem pequena), nome
pelo qual os espanhóis chamaram a rica especiaria que
encontraram no novo mundo, numa justa alusão ao seu formato. Em
português, "vainilla" virou baunilha, nome que designa não
apenas a especiaria em si, mas que, também, é popularmente
utilizado para as orquídeas desse gênero.
Tesouro Azteca
A baunilha é nativa do Sudeste do México, da Guatemala e outras
regiões da América Central e as civilizações pré-colombianas
dessas áreas já a conheciam e utilizavam. Chamavam-na de "Tlilxochitl"
ou "Xahanat", a flor negra.
Os aztecas a utilizavam para aromatizar e realçar o sabor de uma
bebida sagrada - o chocolate (chololatl), a mesma com a qual o
imperador Montezuma generosamente manifestou a hospitalidade de
seu povo ao explorador espanhol Hernán Cortés, sem jamais
imaginar o tipo de retribuição que o futuro lhe aguardava.
Diz-se que a baunilha foi o único tesouro que os espanhóis não
conseguiram levar dos aztecas. Bem que quiseram, mas todas as
tentativas de cultivá-la na Espanha ou em outras regiões
fracassaram. A planta crescia até bonita, mas nada de dar
frutos. A razão era a falta de insetos polinizadores, que, pela
delicada natureza da flor, que possui uma membrana separando o
órgão reprodutor masculino do feminino, dificultando a
polinização natural, precisavam ser muito pequenos e
especializados, para conseguirem cumprir essa missão e não
existiam fora do habitat de origem da planta.
Somente em 1836, quando o botânico belga Charles Morren
(1807/1858) conseguiu a polinização artificial, é que o cultivo
da baunilha se difundiu.
Em 1841, um jovem escravo de 12 anos, chamado Edmond Albius
descobriu, por ele mesmo, a técnica da polinização manual.
Assim, em 1848, o departamento ultramarino francês de Réunion
exportou para a França cerca de 50 favas. Devido ao grande
sucesso deste cultivo, a cultura da Vanilla foi introduzida nas
ilhas vizinhas (Madagascar, Comores, Santa Maria) e em 1898,
cerca de 200 toneladas de vagens foram produzidas pelas colônias
francesas.
A descoberta da polinização artificial e a venda de mudas
permitiram o desenvolvimento do cultivo comercial da Vanilla nas
regiões tropicais e, além da França, a Inglaterra e a Bélgica
cultivaram esta orquídea em muitas de suas possessões coloniais.
Hoje, elas estão dispersas nas regiões tropicais e subtropicais
de todo o mundo (Indonésia, América do Sul, América Central,
México e África). A ilha africana de Madagascar é a maior
produtora mundial de baunilha e, junto com os vizinhos Comores e
Réunion, responde por praticamente de 90% da produção,
calculada em cerca de 12 mil toneladas por ano. México, Uganda e
Congo, também, são produtores. No Brasil, a baunilha vem sendo
cultivada com sucesso na região de Belmonte, a 777 km de
Salvador, extremo Sul do Estado.
Da fava à baunilha
Além de não ser um cultivo fácil, não basta plantar e polinizar
manualmente as flores para colher suas favas de baunilha
perfumadinhas e prontinhas para serem usadas. Elas, in natura,
não têm cheiro, o perfume ficou todo na flor. Para que adquiram
as características aromatizantes que deram fama à baunilha, é
preciso que as favas sejam submetidas a um longo e trabalhoso
processo de cura, através do qual se forma o principal princípio
ativo do aroma característico da baunilha, uma substância
química (um aldeído) chamada vanilina.
Por isso, não é de se estranhar que, depois do açafrão e do
cardamono, a baunilha seja a terceira especiaria mais cara do
mundo. Um quilo de favas de qualidade custa por volta de 500
dólares; 1 kg de vanilina natural para a produção de extrato
custa mais 4000 dólares.
A baunilha sintética
Até o final do século 19, a baunilha era um produto de elite,
mas, então, o principal princípio ativo responsável pelo seu
aroma, a vanilina, foi identificado e produzido artificialmente,
popularizando o seu uso.
Mas não confunda: baunilha natural só com as favas ou com a
essência delas extraída. Essa essência de baunilha que
encontramos em frascozinhos em qualquer supermercado são
extratos sintéticos, comumente derivados de liquores de sulfito,
produzidos durante o processamento da polpa de madeira para a
fabricação de papel. Elas não fornecem mais que a principal nota
sensorial do "flavour" natural da baunilha que resulta de uma
complexa combinação de mais de 200 substâncias existentes nas
favas. Portanto, o produto sintético nem de perto se assemelha
ao natural.
As variedades comerciais
O gênero Vanilla congrega mais de 150 variedades espalhadas pela
faixa tropical e subtropical úmida do globo, e leste dos Estados
Unidos. Entretanto, nem todas servem como aromatizantes pois não
produzem vanilina. Das que servem, apenas três têm real
importância econômica:
1 - Vanilla planifolia ou fragans (tipo mexicano ou Bourbon),
originária do México, América Central e Norte da América do Sul.
É a principal delas e a mais difundida. Além de sua região
endêmica, é cultivada em Madagascar e no entorno do oceano
Índico. Pela lógica dos terroirs, a melhor baunilha dessa
variedade é a produzida no México.
2 - Vanilla pompona, encontrada desde o México até as Guianas e
Trinidad e Tobago, com frutos menores, mais grossos e carnudos.
São pesados e com maior dificuldade na sua secagem. É também
consumida fresca, em pequenos pacotes - conhecidos popularmente
como baunilhão.
3 - Vanilla tahitensis ou baunilha do Tahiti que, como o nome
indica, é cultivada na paradisíaca ilha da Polinésia Francesa e
arquipélagos vizinhos, sendo portanto muito rara. Embora não
seja tão rica em vanilina quanto a espécie planifolia, tem um um
pungente aroma floral e de anis que a faz disputada entre os
gourmets de todo o mundo. Como a produção é pequena, apenas 15
toneladas de favas por ano, seu preço costuma ser três vezes
maior que o da baunilha Bourbon.
No Brasil estão listadas ao redor de 31 espécies nativas, mas
que não possuem mercado, pois o seu flavor é muito diferente.
O processo de cura
Como já foi dito, a fava da baunilha in natura não tem aroma;
adquire-o através de um lento e difícil processo de cura que,
além do aroma, vai desenvolver todo o seu potencial de sabor e
untuosidade e fazer com que adquira a cor marrom escuro que lhe
é característica. Com muitas etapas diferentes, em geral
envoltas em muitos segredos, a cura da baunilha exige um grande
conhecimento e paciência, sendo fator determinante para
qualidade da baunilha.
O processo varia conforme a região produtora, mas, o princípio
básico da cura é tratar as favas inicialmente com calor e,
depois, desidratá-las. Em média, num período de 30 dias, as
favas já desidrataram, mas, ainda, vai demorar de seis a sete
meses para que elas estejam, de fato, prontas para o consumo.
Durante esse período, um processo natural de transformação
química recobrirá as sementes do interior da fava com cristais
de vanilina, fazendo rescindir o perfume da baunilha.
Foram os astecas que desenvolveram a técnica de curar as favas,
fazendo-as fermentar e secar repetidas vezes para obter a
vanilina branca cristalizada, sem a qual as favas não têm sabor.
São necessários de 5 a 6 kg de baunilha verde para se obter 1 kg
de favas de baunilha prontas para o mercado.
Os múltiplos usos da baunilha
O aroma da baunilha é descrito como cremoso, doce, suave e
maduro e ela é largamente
utilizada na aromatização sorvetes, chocolates, bebidas e
produtos de confeitaria. Também, é utilizada na perfumaria e na
cosmética, para a produção de essências para a fabricação de
perfumes, sabonetes, talcos, cremes, etc. e, em pequena escala
como medicinal. No México, os frutos da baunilha também são
utilizados na confecção de artigos de artesanato.
Propriedades Medicinais
Na literatura médica antiga, credita-se à baunilha propriedades
afrodisíaca, anti-térmica, anti-espasmódica, anti-séptica,
digestiva, emenagoga (capaz de provocar a menstruação) e
estimulante. Nas regiões tropicais do México, é utilizada contra
as picadas de animais venenosos. Mas, esses supostos efeitos
nunca foram cientificamente comprovados. De fato, ela tem sido
empregada não como medicamento, mas para aromatizar algum
medicamento de gosto ruim, como xaropes e tinturas.
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