Talvez o mais amado, mas, com certeza, o mais polêmico e marcante
personagem da humanidade, a MÃE é uma instituição universal.
Diz-se que são todas
iguais, só mudam
de endereço.
Pode ser que seja
verdade, pois não
importa onde viva, a
religião que
professe, sejam
quais forem as suas
origens, seu nível
cultural ou social,
em qualquer lugar do
mundo mãe é sempre
tida como exemplo
maior de amor e
dedicação.
Idealização ou não, o fato é que todo mundo tem
uma, ou teve, e grande parte das pessoas traz consigo um
carinho enorme que invade o coração e faz surgir um sorriso, nem que
seja "de levinho", no canto da boca, cada vez que a lembrança dela
aflora. É ou não é verdade?
E se tem um assunto que, normalmente, faz lembrar a mãe da gente, é
comida. Alguém cozinha melhor que a sua mãe? Fora raríssimas exceções,
daquelas que ficam famosas exatamente pela
total
falta de talento na cozinha, a mãe de todo mundo é a maior
cozinheira do planeta.
A minha mãe era uma grande cozinheira, claro... Mas não sou só eu que
digo. Os lugares na mesa da minha infância eram muito disputados. Havia,
sempre, pelo menos, um convidado - em geral, bem mais que um. Nunca vi
alguém recusar um convite dela, mas me lembro, perfeitamente, do quanto
era comum alguém chegar para almoçar ou jantar sem nem ter avisado.
Mineira de nascimento,
minha mãe
aprendeu a cozinhar com minha avó, outra mineira, filha de
espanhóis - ou melhor, bascos, como meu bisavô faria questão de
ressaltar, e herdou um patrimônio culinário que mesclava o bem comer das
Minas Gerais com as técnicas da milenar cozinha basca e, ainda, era
enriquecido pelos pratos, aromas e sabores da cozinha do Piemonte, que
veio através do pai dela, filho de italianos.
Nesse caldeirão de culturas, entrou um marido bom de garfo, um gourmet
dos tempos que essa palavra quase nem era usada por aqui, mineiro
autêntico, do interior, herdeiro de tradições culinárias portuguesas que
vinham dos primórdios dos tempos coloniais. O casal viveu em São Paulo,
uma das capitais mundiais da gastronomia. O resultado dessa mescla toda
foi uma mesa farta, onde se tinha de tudo - do arroz, feijão e angu
obrigatórios de todo dia, sempre acompanhados
de, pelo menos, dois tipos de carne e
umas três variedades de verduras (refogadas, empanadas, em bolinhos, tortas, suflês, cruas), às rãs,
capivaras, pacas,
catetos,
marrecos, cabritos, leitoas, polvos, peixes exóticos, codornas e
outras aves estranhas. Por falar em aves, não era raro um frango vivo
chegar no sábado para e ser servido ao Molho Pardo no domingo.
Meu pai era o responsável pelas compras "gastronômicas", digamos assim.
Metódico, todos os sábados, por volta das 11h00 da manhã, ele ia ao
Mercado Municipal da Lapa buscar o "almoço" de domingo. Cabe dizer aqui,
que as refeições na minha casa eram momentos sagrados aos quais eram
necessárias razões prá lá de plausíveis para se faltar. Todos os dias,
entre 12h30 e 13h00, a mesa do almoço
estava posta e até que todos estivessem em seus lugares ele não era
servido. O mesmo acontecia com o jantar, entre 20h30 e 21h00. Só aos
sábados a coisa ficava mais liberada, o almoço saía mais tarde e não
tinha jantar, tinha lanche, as vezes pizza, as vezes outras coisas, mas,
aí, cada um podia fazer como quisesse. Mas almoço de domingo era
sagradíssimo - não só todo mundo junto como, ainda, sempre uma comida
especial.
Lembro da minha mãe na cozinha, "recepcionando" as compras que chegavam
do Mercado da Lapa. Muitas vezes ela olhava meio espantada pro meu pai e
perguntava: - mas como se faz isso? Ele sorria e respondia: - ora, você
sabe, e ia saindo de fininho. E não me pergunte como, mas ela sabia. Era
dom. Embora tivesse diversos cadernos de receitas preenchidos,
caprichosamente, com sua letra linda, dificilmente seguia alguma delas,
só mesmo as de massa de torta e doces, e, ainda assim, os mais elaborados.
Não provava a comida, não sei como acertava sempre o tempero; nas
situações de mais cerimônia, garantia-se
pedindo pra alguém provar. Ia cozinhando e conversando, tranqüila,
mesmo, muitas vezes, sabendo que haveria um monte de gente pra comer.
Nunca soube fazer pouca comida ou pouca variedade de comida, mas, mesmo
assim, quando terminava de cozinhar, não tinha uma só louça ou panela
pra lavar. Em compensação, em dias de festa, não deixava que se
desmontasse a mesa, só recolhia travessas de comida que precisassem de
geladeira, pratos e talheres usados. Os "não perecíveis", sobretudo
doces, ficavam na mesa de jantar. Quando acabava a festa, ela cobria a
mesa com uma outra toalha e ficava assim até o
dia seguinte. A louça usada ia pra pia, organizada lá, mas, também, só
seria lavada no dia seguinte. Ela nunca me disse porque fazia isso, mas
eu faço exatamente a mesma coisa na minha casa e, cada vez que fiz e
faço, me lembro dela. Mais que lembro, vejo, feliz, o quanto dela trago
dentro de mim.
Alguns de seus pratos ficaram famosos, eram sempre solicitados,
inclusive, pelas visitas: Canjiquinha (com quirera - ou xerém - de milho e costeleta
de porco, uma comida da roça, que dá sustância pra lida nas fazendas,
quase uma sopa grossa, pra se comer pura ou com arroz e couve fininha), Bacalhoada
(feita na panela, cozida no azeite com batata, cebola, tomate, pimentão,
ovo cozido, azeitona verde e aromatizado com orégano), Frango com Quiabo
e o já mencionado ao Molho Pardo, Arroz com Suã de Porco, Dobradinha,
Rabada, Peixada, Camarão com Catupiry e Empadinha de Camarão, Feijão Tropeiro (mas
não o tradicional que todo mundo conhece, um diferente, com feijão preto
misturado com farinha de mandioca, cebola, salsinha, muita lingüiça e
torresmo, que passa pelo forno antes de ir à mesa - uma coisa divina),
Lombo Assado (suculento por dentro e sequinho por fora), Rosbife, Tender
Natalino (que ficava pelo menos 3 dias de molho no suco de laranja com
mostarda antes de ir ao forno),
Lasanha (que dormia montada no leite e depois derretia na boca),
Gnocchi (que todo mundo ajudava a fazer e cujo molho, de
tomates frescos, ia pro fogo logo cedo e ficava por horas fumegando na
panela de pedra), Panquecas, Bolinhos de Arroz e de Espinafre, Pizza de
Panela de Pressão, Antepasto de Berinjela Assada, Patê de Pimentão -
nossa, tanta coisa... Fazia Pão de Queijo e um Pão de Mandioquinha que
cheirava na rua toda e levava a vizinhança a bater na porta pra provar
junto com seu cafezinho mineiro, fraquinho para os padrões paulistanos,
que ela chamava de "chafé". Nos doces, a especialidade dela eram as
frutas em calda, figo, laranja da terra, cidra, cozidos em tacho de
cobre. Também, era ótima no doce de abóbora, no de leite e no cural de
milho. Mas o grande sucesso, mesmo, era o quindim. Amo quindim, mas
nunca comi nenhum melhor que o da minha mãe (isso, por acaso, lhe soa
familiar?).
Fui escrevendo e minhas lembranças se encheram de sabores, de cheiros,
de texturas e de saudade. E, como aconteceu comigo, creio que cada um
que começar a se lembrar da cozinha da sua mãe, vai ter essas mesmas
sensações, pois comida de mãe faz isso mesmo, mexe com a gente.
Pra aqueles que, como eu, não podem mais se deliciar com as iguarias maternas pois
ela já se foi daqui, ou aos que, por uma razão ou outra,
estão longe delas, fica a sugestão de, no Dia das Mães, buscar alguma
das receitas que ela fazia, talvez a que mais lhe agradasse, e incluí-la
no cardápio dessa data especial - afinal essas receitas são elos que
sempre nos unirão a elas. Aos que têm a felicidade de tê-las ao lado,
que tal presenteá-las de forma original, oferecendo a elas suas próprias
receitas feitas por você? E não venha me dizer que ninguém cozinha como
sua mãe..