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DIA DOS NAMORADOS
POIRE BELLE HÉLÈNE
A mais romântica das sobremesas
Virgínia Brandão
Clássico dos clássicos da culinária francesa, a Poire Belle
Hélène, além de uma sobremesa deliciosa é, também, um ícone do que eu
chamaria de "gastronomia romântica" e muitos outros chamam de "cozinha
afrodisíaca".
Consiste em peras cozidas numa calda à qual se agregou alguma
bebida alcoólica (em geral vinho ou poire) e diversas
especiarias, e que são servidas com sorvete de baunilha e calda
de chocolate quente. Em versões mais sofisticadas, costuma-se agregar
delicadas fatias de amêndoas torradas e chantily à receita.
A pêra é uma fruta muito sensual, feminina na alma, no paladar e no estilo.
Voluptuosa, ela flerta desejosamente com diversas especiarias e ervas, que a
envolvem gerando harmonias sutis, picantes e surpreendentes que convidam a
uma viagem pelos sabores. Suculenta, macia, delicada, perfumada,
refrescante, seu formato, muitas vezes, é comparado aos seios das mulheres. Ao
mescla da pêra com o chocolate, conhecido estimulante do corpo e da alma,
beira à perfeição, deixando
na boca
uma
sensação ímpar e
deliciosa, que revela os aromas açucarados da pêra, levemente amadeirados,
exalados pelo calor do chocolate derretido.
Não foi por menos, que essa combinação sempre inspirou chefs, gourmets e
gourmands, assim como aconteceu com o criador da receita da "Poire Belle
Hélène",
cujo nome, infelizmente, não foi registrado pela História,
ao contrário de sua criatura, que ganhou notoriedade mundial com o correr do
tempo.
O que se sabe, é que essa sobremesa foi criada sob a égide do romance e da sensualidade, na
Paris do século 19. Vivia-se, então,
o apogeu do movimento romântico que,
como podemos observar,
fez-se
presente em todas as artes, inclusive na gastronomia. Mais
precisamente, a receita foi lançada
por ocasião da estréia, em 17 de dezembro de 1864, da opereta La Belle Hélène, composta pelo alemão Jacques Offenbach,
e inspirada
numa famosa e "caliente" história de amor e sedução - a da paixão de Helena,
rainha de Esparta, mulher de Menelau, pelo belo Paris,
príncipe de Tróia, que a leva para seus domínios, provocando a
famosa guerra que Homero descreveu na Ilíada.
O espetáculo tinha como estrela principal a soberba soprano
francesa Hortense Schneider (1833-1920),
muito admirada por sua poderosa voz, presença em cena e talento para os
diálogos cômicos.
Um
jornalista da época assim a descreveu: "É impossível ser mais picante, mais bonita e mais
original...".
Apesar de não possuir uma beleza
clássica, Schneider era considerada
uma mulher muito sensual, e sua vida fora do palco, sobretudo a amorosa, foi
muito tumultuada, com uma sucessão de amantes nobres, entre os quais se
incluíram o Príncipe de Gales, o futuro Edward VII, Napoleão III e do duque de Morny.
As más línguas da época a chamavam de
“le passage des princes”
(passagem dos príncipes) ou “la divine scandaleuse" (a divina escandalosa).
Morreu em Paris, aos 87 anos, mais de quatro décadas depois de ter se casado e
abandonado os palcos em 1878.
Foi essa grande artista e polêmica mulher que, encarnando nos palcos a
passional Helena de Tróia, inspirou nosso anônimo cozinheiro a criar a
sensualíssima receita da Poire Belle Hélene, presença marcantes nos
cardápios românticos daqueles tempos e nos de hoje.
Sucesso
sem precedentes,
a
opereta La Belle Hélène
teve mais de 500 apresentações, sem que o entusiasmo do público jamais se
arrefecesse.
Mais que uma simples reconstituição da famosa história
Antiguidade grega, La Belle Hélène era uma sátira erótica e mordaz sobre uma
sociedade hedonista, referência direta à alta sociedade que gravitava em
torno de Napoleão III. A cena do primeiro ato, que narra um absurdo jogo de
charadas vencido por Páris, constitui uma transposição dos jogos de salão
comumente praticados na corte. O terceiro ato, que se passa no mar, evoca um
dos destinos turísticos prediletos do Imperador. Com "La Belle Hélène,
Offenbach legou à posteridade uma outra obra truculenta e colorida, fiel à
espírito do Segundo Império.
As Operetas
As Operetas eram uma novidade daqueles tempos
e
Offenbach foi o mais importante precursor do gênero, tipicamente francês.
Também chamadas de óperas ligeiras,
as operetas eram pequenas óperas que
se
caracterizavam por serem mais leves que as óperas
tradicionais (chamadas de óperas sérias),
tanto pela música,
alegre e viva, como pelo enredo descontraído e diálogos falados
entre números de música cantada, o que fez com que, rapidamente, caíssem no
gosto popular e obtivessem enorme sucesso. A Opereta é considerada a mãe da
moderna "Comédia Musical" - peça teatral cantada, que utiliza atores que também são cantores.
Graças a Offenbach, a opereta tornou especialmente popular em Paris, e seu
nome imortalizou-se ligado a esse gênero musical.
Como toda boa receita que se preze, a da Poire Belle Hélène
permitiu e ganhou complementos e releituras ao longo do tempo.
Veja, abaixo, algumas delas:





Conheça a
receita da Poire Belle Hélène,
clique aqui.
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Hortense Schneider -
estrela da opereta "La Belle Hélène" e musa inspiradora da "Poire Belle
Hélène, a mais romântica de todas as sobremesas.
Jacques Offenbach

(1819/1880)
Jacob
Ebert, que ficou conhecido com Jacques Offenbach, nasceu na cidade de
Colônia, na Alemanha, em 20 de Junho de 1819. Filho de um chantre (cantor)
de sinagoga, foi muito jovem viver para Paris, onde estudou violoncelo no
Conservatório por alguns anos. Depois de trabalhar como violoncelista na
orquestra da Opéra-Comique, assumiu o lugar de maestro no Théâtre Français.
Tornou-se conhecido como compositor de cançonetas, iniciando a carreira de
compositor de operetas aos 39 anos com "Pépito", que pouco êxito alcançou.
Foi dois anos mais tarde, quando se tornou empresário do pequeno Teatro
dos Champs Élysées, que batizou de Bouffes-Parisiennes, que o seu sucesso,
e prosperidade econômica se iniciaram numa ascensão vertiginosa. Homem
certamente possuidor de uma energia invulgar, Offenbach escreveu cerca de
100 operetas e óperas-bufas no espaço de 26 anos.
Esse
o trabalho que sobrevive ao Tempo, porque, mais do que um compositor ou um
autor de canções, Offenbach foi, sobretudo, um homem de teatro, um
encenador exigentíssimo, capaz de sacrificar alguns compassos para obter o
efeito cênico desejado. Foi, também, um homem de teatro no campo
comportamental, já que o seu temperamento explosivo ficou para sempre como
uma marca da sua personalidade. Um temperamento explosivo que ele próprio
reconhecia, sendo seu hábito iniciar os ensaios dizendo: "Meus amigos,
peço-lhes que me perdoem pelas coisas horríveis que lhes vou dizer." E
depois... dizia. E fazia. Como daquela vez em que assistia ao final de uma
das suas operetas – um final que se arrastava interminavelmente. Doente e
febril, saltou da poltrona para a orquestra, com uma energia
extraordinária, e emendou o que havia a emendar, sendo aplaudido por
todos. Depois voltou a cair, exausto, na poltrona, e exclamou: "Parti a
bengala... mas encontrei o final. Morreu em Paris, em 5 de outubro de
1880, aos 61 anos de idade.
Assim era
Offenbach, o autor da ópera-buffa "La Belle Hélène", escrita e encenada
pela primeira vez em 1864, da qual você vai poder saber um pouco na
sinopse abaixo. Confira!!

La
Belle Hélène
Música:
Jacques Offenbach
Livreto: Meilhac e Halévy
Estréia: 17 Dezembro 1864
Théâtre des Variétés de Paris
duração: 130 minutos
Personagens
Helena, Rainha de Esparta
Paris, filho do Rei de Tróia
Menelaus, Rei de Esparta
Agamemnon, Rei de Argos
Clachas, enviado de Júpitar
Orestes, Filho de Agamemnon
Achilles, Rei de Phtiotis
Ajax
I, Rei de Salamis
Ajax
II, Rei de Locrians
Bacchis, Aia de Helena
Parthoenis, um cortesão
Leoena, uma cortesã
1.º Ato
A ação se passa na Antiguidade, e la Belle Hélène não é outra senão a
lendária Helena de Tróia. A ação inicia durante as festas em honra de
Adônis quando o povo deposita as suas oferendas diante do altar do deus.
Calchas, grande sacerdote de Zeus, queixa-se de que as oferendas são cada
dia mais insignificantes. Depois, é a vez das mulheres se queixarem dos
esposos, dizendo que lhes falta ardor conjugal, e, comandadas por Helena,
pedem a Afrodite que espalhe mais amor sobre o mundo. Mas a verdadeira
preocupação de Helena é o concurso de beleza onde o pastor Páris recebeu
de
Afrodite, como prêmio por sua vitória, a promessa de ser
amado pela mais bela mulher do mundo. E a mais bela mulher do mundo era
Helena.
Páris chega disfarçado de pastor e entrega a Calchas uma carta de
Afrodite. Nessa carta, a deusa incumbe o sacerdote de
reunir Páris e Helena. A paixão é fulminante e recíproca, sendo esse
primeiro encontro interrompido pelo cortejo liderado por Agamemnon que
decidiu realizar um concurso consagrado às coisas da inteligência. Sempre
disfarçado de pastor, Páris ganha todas as provas e é declarado vencedor.
Isto gera o pânico entre os grandes: "um pastor
foi declarado mais inteligente do que eles!" Mas os ânimos acalmam-se
quando é revelada a verdadeira identidade do premiado: ele é o filho de
Príamo, rei de Tróia. Helena convida-o para jantar, e, a pedido de Páris,
Calchas encarrega-se de afastar o marido incômodo que parte em viagem
durante um mês.
2.º Ato
A ação do 2º ato desenrola-se um mês mais tarde da do 1º. Helena continua
a resistir não apenas ao amor de Páris mas ao amor que sente por ele.
Mesmo assim pede a Clachas para se encontrar com Páris em sonhos, já que,
em sonhos, não corre qualquer perigo. Páris é informado deste desejo de
Helena, e insinua-se nos seus aposentos "como se fosse um sonho". Só que o
"sonho" torna-se na mais pura realidade com o regresso de Menelau.
Espanto, gritos, fúria do marido, e Páris, em fuga, jurando não desistir.
3.º Ato
O 3º ato passa-se na estação dos banhos. Helena tivera alguma dificuldade
em convencer Menelau de que aquilo que ele vira fora apenas um sonho. Mas
não é isso que preocupa os grandes. Eles estão preocupados sim com a
vingança de
Afrodite pela expulsão de Páris. É que a deusa decidiu
enviar sobre toda a população uma epidemia de infidelidade conjugal! Por
tal forma que os príncipes pedem a Menelau que se sacrifique para bem do
país. Mas Menelau agarra-se a uma outra solução: invocar
Afrodite e transmitir-lhe as suas súplicas. De barco,
vindo de Cyther, chega o mensageiro esperado: é de novo Páris com um novo
disfarce dizendo que
Afrodite está disposta a perdoar desde que Helena passe
uma temporada na ilha. Helena embarca na companhia do mensageiro que acaba
por lhe revelar a sua verdadeira identidade. Demasiado tarde: o barco
deixou o porto. Segue-se a Guerra de Tróia... mas esta é uma outra
história que não tem lugar nesta ópera.
Fontes:TV RTP Portugal
Wikipedia
História da Ópera
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