
No início do século 20, havia na cidade
de São Paulo uma série de pequenos mercadinhos onde eram vendidos legumes,
verduras e frutas produzidos em chácaras das imediações do Vale do
Anhangabaú. Sua unificação num mercado central começou a ser cogitada em
1914.
Foi, entretanto, apenas em 10 de abril de 1925, por
iniciativa do então prefeito, José Pires do Rio, que o Mercado Municipal
Paulistano começou a ser construído na Várzea do Carmo, nas imediações
do parque Dom Pedro II, bem ao lado do rio Tamanduateí, principal via de
transporte fluvial da cidade. A idéia era abrigar os comerciantes
da região central da cidade que vendiam seus produtos ao ar livre, num espaço único, junto ao rio, para que os barcos com produtos vindos das
chácaras próximas pudessem aportar.
O edifício deveria estar à altura da
emergente “metrópole do café”, que queria ganhar ares cosmopolita,
deixando para trás as construções coloniais. Para tanto, foi contratado
o escritório do já então renomado Francisco de Paula Ramos de Azevedo,
também responsável pelo Fórum, o Palácio das Indústrias e o Teatro
Municipal de São Paulo, que encarregou o arquiteto italiano Felisberto Ranzini¹
do projetado.
A obra
As obras do Mercadão, como é conhecido
pelos paulistanos, arrastaram-se por quase oito anos e custaram, na
época, dez mil contos de réis. Numa mistura de estilos arquitetônicos -
neogótico, neobarroco e neoclássico, cujas elegantes fachadas se impunham na
paisagem, o majestoso edifício foi erguido num grande quarteirão de
22.230m², delimitado pelas ruas da Cantareira, Mercúrio, Assad Abdala e
avenida do Estado.
Com uma excelente solução de
iluminação natural graças ao uso de clarabóias e telhas de vidro, a área
construída de 12,6 mil m² teve um requintado acabamento (painéis
de azulejos provenientes da Alemanha e da Bélgica; escada de mármore
carrara, por exemplo) e era muito bem planejada e funcional, tendo sido
originalmente dividida da seguinte forma: 40% para cereais, legumes,
frutas e flores; 20% para laticínios e salgados; 10% para carnes verdes;
10% para peixes e os 20% restantes para aves, caças e outros animais.
Na estrutura do edifício, cujo
pé-direito chegava a atingir 16 metros, foi usado concreto armado,
material que começava a se popularizar em São Paulo. A composição da
fachada é marcada por uma série de arcos, com fecho em forma de
mascarões de rostos femininos, encimados por cornucópias cheias de
frutas. Na rua da Cantareira e na avenida do Estado, há duas torres que se
projetam da fachada, sendo que apenas na rua da Cantareira são coroadas
por cúpulas revestidas de bronze. Os arcos dessas torres são fechados
pelo brasão da cidade de São Paulo, criado poucos anos antes pelo
artista J. Wasth Rodrigues, por iniciativa do então prefeito Washington
Luís.
Vitrais de Conrado Sorgenicht Filho
O ponto alto da decoração eram os 55
vitrais em estilo gótico, executados com vidros coloridos vindos da
Alemanha, retratando cenas do campo - a lida com o gado, o plantio e a colheita
do café – base das atividades econômicas do Estado no período. As peças
eram de
autoria de Conrado Sorgenicht Filho, o grande nome da arte em vitral de
São Paulo. De uma família de mestres vitralistas alemães de apurada
técnica, que, com
Conrado Sorgenicht pai, chegou à São Paulo em 1888 e fundou a Conrado
Vitrais e Cristais, ele também foi o autor dos vitrais da Estação
Sorocabana e de vários outros edifícios importantes, como o Teatro
Municipal, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a Catedral
da Sé e mais 300 outras igrejas brasileiras. A confecção dos
vitrais do Mercado Municipal demandaram a Conrado cinco anos de trabalho
árduo. E no final dos anos 80, Conrado Sorgenicht Neto se encarregou da
restauração dos vitrais que seu pai havia criado sessenta anos antes.
A
Inauguração
Em 1.932, as obras foram concluídas, mas
a inauguração teve de ser adiada por conta da Revolução
Constitucionalista - o prédio do Mercado foi requisitado para servir de
paiol e estocou armas e munições das tropas paulistas. Conta-se, ainda,
que os soldados, para treinar sua pontaria, miravam as cabeças das
figuras dos vitrais e que, depois, Sorgenicht trabalhou por mais dois meses
para repor os fragmentos quebrados.
Derrotada a Revolução, finalmente, no dia
25 de janeiro de 1933, quando a cidade contava com uma população de um
milhão de habitantes, foi oficialmente inaugurado “O mais vasto edifício municipal de sua espécie
na América do Sul”, como anunciou o jornal O Estado de São Paulo, que
foi considerado, na época, "majestoso demais para a sua finalidade".
Os primeiros tempos
Após a inauguração, entretanto, não foram muitos os interessados em
transferir-se para lá, pois os comerciantes, muitos deles imigrantes –
italianos, espanhóis, portugueses e libaneses, estavam receosos, assim
como os fregueses, por conta de ser a Várzea do Carmo um enorme pântano
e não haver nenhum meio de transporte que ligasse a região com o restante da
cidade. Foi somente em 1939, quando começaram a circular as três primeiras linhas de
bonde servindo as ruas próximas, que o Mercado
se tornou atrativo e interessante, tanto para a população da região central da
cidade, quanto para os comerciantes para os quais, a título de
incentivo, a Prefeitura da época resolveu oferecer os boxes
gratuitamente.
No início de seu funcionamento, o piso
inferior era utilizado para a venda de verduras e legumes por atacado e,
no superior, para a venda a varejo.
Segundo depoimento de Jorge Americano, em
seu livro São Paulo nesse Tempo (1915–1935), no mercado da
Cantareira "havia frutas, cereais, legumes, verduras, lingüiças,
frangos, toda a pequena produção das chácaras dos arredores e um setor
de peixe, vindo de Santos. Nada de artigos que não fossem comestíveis, a
não ser as cestinhas e peneiras tecidas em taquara e os potes e moringas
de barro".
O Correr do Tempo
No pós-guerra, o Mercadão viveu a sua
fase de maior esplendor e solidificou sua fama e prestígio como Templo
Gastronômico. A economia estava aquecida; a cidade recebia muitos
imigrantes, gente de todos os lugares faziam compras ali.
Mas o período áureo acabou ainda no final
da década de 50, quando a região passou a enfrentar uma série de
enchentes do Tamanduateí (só
controladas no final dos anos 70), que culminaram com a inundação de
1966, quando as águas chegaram a mais de um metro de altura dentro do
mercado. Ainda nessa época, São Paulo assistia à abertura de seus
primeiros supermercados. Os anos 60 foram de tempos difíceis para o
Mercadão, chegando-se, mesmo, a se cogitar a sua demolição. Mas,
felizmente, os comerciantes se uniram, conseguiram seu tombamento pelo
Condephaat e adotaram
um perfil mais varejista, mantendo-se os tradicionais boxes que passam
de geração para geração.
Durante mais de 3 décadas, o Mercadão da Cantareira foi o grande
entreposto de alimentos de São Paulo, centralizando a distribuição
atacadista de frutas e verduras. Mas, como os mercados públicos que o
antecederam, acabou, ele próprio, se tornando insuficiente para a cidade
que mais crescia no mundo, malgrado suas dimensões colossais. Foi
substituído pelo CEASA, construído entre 1961 e 1966 às margens de
outro rio - o Pinheiros (curiosamente, o próprio CEASA já se tornou
obsoleto, e está sendo planejada uma nova central de abastecimento no rodoanel, a Ciap).
A Restauração
Apesar de sua importância, o Mercadão não
recebeu, ao longo do tempo, o cuidado que merecia e necessitava. Somente em 1974, a
Prefeitura da cidade realizou pintura nas fachadas e
outras pequenas reformas no edifício, mas muito ficou faltando. Uma
outra reforma, nos anos 80, também pouco resolveu. Um Projeto de
Requalificação do Mercado Municipal Central ficou pronto em 1989,
mas, por inúmeras razões, sendo a mais relevante o custo do
empreendimento considerado muito elevado para a época, nunca saiu do
papel.
Para a sorte de São Paulo e de todos nós,
a gestão da Prefeita Marta Suplicy (2001-2004) teve como uma de suas
prioridades a implementação do Programa de Revitalização do Centro de
São Paulo que, entre outras ações, incluiu a completa restauração do
Mercadão. O projeto de 1989 foi, então, revisto, havendo a readequação
da infra-estrutura geral do edifício para a atual realidade do
centro da cidade e do vai-e-vem de seus cidadãos, evidentemente muito
diferentes da realidade de sete décadas atrás, quando ele foi projetado
e construído.
Observando a tendência do Mercado
Municipal como centro gastronômico aliado ao histórico varejista, a
Prefeitura resolveu não só requalificar a infra-estrutura, mas, também,
fazer um outro projeto que adicionasse novas funções ao espaço. Assim, o
programa de intervenções foi dividido em duas etapas:
- a primeira tratou da infra-estrutura em
relação ao conforto, segurança, acessibilidade dos portadores de
deficiências físicas a todas as dependências do edifício, tratamento
seletivo e acondicionamento do lixo, doca de carga e descarga adequada,
“piso flutuante” sobre galerias;
- a segunda, dotou o Mercadão de novas
áreas, como restaurantes, Escola de Culinária e um Mezanino de 2.000m²
para funcionar como uma espécie de varanda gastronômica com vista para o
interior do edifício, privilegiando os vitrais. O antigo salão de
Leilões do Mercado Municipal foi totalmente restaurado, tornando-se um
amplo espaço destinado para exposições e eventos.
Os 12.600m²
de área construída do Mercado Municipal ganharam mais 8.000 m2 entre
áreas construídas e reaproveitadas. Além dos 281 boxes que comercializam
alimentos variados, o local passou a abrigar nove restaurantes de
cozinhas de diferentes especialidades, padaria, choperia e uma ampla
área de serviços com sanitários, fraldário e enfermaria. Sempre preservando o
patrimônio histórico, nas adaptações arquitetônicas realizadas,
adotou-se, intencionalmente, uma linguagem contemporânea que permitisse
a distinção clara entre o que é característica do projeto original do
edifício e o que havia sido feito agora.
O piso foi trocado por placas de granito flaneado;
o telhado reformado; o teto ganhou novas luminárias e pintura original,
e os vitrais, foram minuciosamente recuperados. Houve, também, a
retirada da fiação até então existente sobre os boxes. O projeto previu,
ainda, cuidados com a iluminação interna, nova iluminação externa, a
chamada "iluminação monumental" que valorizou a fachada do edifício que
recebeu pintura original. Com a obra, os 1.600 funcionários locais se
beneficiaram com um novo refeitório e vestiários. Também foram
realizadas melhorias no entorno do edifício, como redimensionamento do
estacionamento e calçadas mais amplas para a acessibilidade ao Mercadão.
Com projeto do arquiteto Pedro Paulo de
Melo Saraiva, as obras tiveram início em agosto de 2003 e, valendo-se de
uma logística especial, foram realizadas sem que o funcionamento normal
do Mercadão em todos os dias da semana fosse suspenso. Exatamente um ano
depois, no dia 26 de agosto de 2004, como parte das comemorações
dos 450 anos da cidade, lindo e majestoso, o Mercado Municipal
Paulistano, foi entregue à população.
Ao longo de mais de sete décadas de existência, o
Mercadão da Cantareira manteve o seu charme, tradição e a
qualidade de seus inúmeros produtos, vendidos tanto no atacado quanto no
varejo, sendo aclamado por uma fiel e variada clientela, que inclui donas
de casa, gourmets exigentes, proprietários e chefs de restaurantes
famosos. como templo de especiarias e produtos gastronômicos em geral.
Virgínia Brandão
Números do Mercado Municipal Paulistano:
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1.600 funcionários trabalham no Mercado;
-
1.000 toneladas de alimento são
movimentadas por dia (atacado e varejo)
-
298 é o total de boxes;
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14 mil visitantes circulam por dia
(durante as obras, verificou-se que esse número não diminuiu e, em
alguns momentos, até mesmo elevou a média das vendas dos boxes).
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Após a reforma, a média de público saltou
para 20 mil pessoas/dia;
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90 caminhões, em média, chegam e saem do
Mercado por dia com mercadorias;
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1.200.000 litros de água é o gasto
mensal;
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780 kw/h é o gasto mensal de
eletricidade.
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Felisberto Ranzini
O arquiteto do Mercado
Municipal, nasceu em 18 de agosto de 1.881, e morreu em São Paulo, em 22 de
agosto de 1976. Foi professor de Composição Decorativa da Escola Politécnica, e
um aquarelista e desenhista consumado. Desde 1.904 trabalhava para Ramos de
Azevedo, e a partir de 1.920, com a morte de Domiziano Rossi, passou a ser o
principal projetista do escritório Ramos de Azevedo, onde trabalhou por quarenta
e dois anos. Pouca gente sabe, mas a maioria dos projetos atribuídos a Ramos é
na verdade de seus colaboradores e auxiliares. Ramos de Azevedo foi sobretudo o
grande empreiteiro de São Paulo na República Velha, graças a suas excelentes
conexões políticas.
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