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HISTÓRIA DO
CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS PELO HOMEM
Álcool e Deuses
O consumo do álcool etílico
pelo homem é antiqüíssimo - tão antigo quanto a própria civilização.
Há milhares de anos homens e mulheres se embebedam com os produtos da
fermentação e da destilação do álcool. Está na Bíblia dos cristãos e
judeus, no livro do Gênesis, que Noé bebeu vinho e ficou bêbado,
terminando vergonhosamente pelado em sua tenda. Depois disso, ele teria
se redimido da bebedeira com a famosa arca cheia dos animais que
deveriam sobreviver a um dilúvio.
Noé não seria classificado de alcoólatra pelo seu mero porre e ressaca
no dia seguinte. Para isso, seria preciso que o hábito continuasse sem
controle e afetasse sua vida cotidiana, impedindo a pessoa de trabalhar
e manter relações com os demais. Em casos extremos, o viciado em álcool
sem acesso à bebida, tem alucinações, tremores e suores semelhantes às
de um viciado em ópio.
Processo Ancestral
Bebidas alcoólicas são comuns sob o ponto de vista histórico porque a
base do processo é um fenômeno natural. Açúcares, estejam eles em
frutas, seivas, mel ou cereais, fermentam - isto é, reações químicas
produzem álcool etílico, tendo como resultado final o que se chama de
"vinho" ou de "cerveja". Foi assim que o ser humano descobriu a
embriaguez: acidentalmente. Aquele pote cheio de suco de uva que, de
repente, ficou mais interessante...
O próximo passo foi decididamente humano: a invenção de uma técnica para
destilar o fermentado, aumentando em muito a concentração de álcool. É
por isso que uma cerveja pode ter 4,5% de álcool e um vinho chega a
13,5% enquanto uma vodka, gin, rum ou cachaça pode ultrapassar a casa
dos 40%.
Os efeitos do álcool tinham algo de religioso, de místico e mesmo de
medicinal na história antiga. Por isso, bebidas fizeram e fazem parte de
cerimônias de iniciação, de ritos de passagem, de casamentos. O casal
que hoje brinda com champagne é um herdeiro direto do homem e da mulher
das cavernas que tomavam sua proto-cerveja, seu proto-vinho.
Bebida Medicinal
Surgidas as primeiras civilizações, também aparece a mística do álcool
como algo medicinal, como aconteceu na antiga Mesopotâmia - apesar de,
simultaneamente, e de modo bem prático, os antigos babilônios, sumérios
e assírios também se preocuparem com os efeitos da embriaguez e
legislarem a respeito.
No código de leis do rei Hamurabi já havia regulamentos sobre o ato de
beber - mas menos restritivos que a famosa "Lei Seca" americana, o
período entre as guerras mundiais durante o qual a fabricação e venda de
bebidas alcoólicas foram proibidas nos EUA, gerando, como subproduto
indesejável, o gangsterismo de gente como o bandido Al Capone.
Apesar das restrições eventuais, o vinho se espalhou pelo mundo. O deus
grego Dionísio, chamado de Baco pelos romanos, personificava o vinho -
e, apesar dessa fama pagã, o vinho tinto passou a simbolizar o sangue de
Cristo na liturgia cristã, além dos clássicos bacanais, as orgias de
sexo e vinho dos adoradores de Baco.
Essas e outras múltiplas utilizações do álcool etílico tornaram seu
consumo socialmente aceitável, senão desejado. E tornaram as sociedades
mais frágeis aos abusos. Destilados ou fermentados baratos foram usados
como mercadoria valiosa para aliciar populações vulneráveis, como índios
americanos (incluindo os brasileiros), ou africanos. O álcool
literalmente dissolveu culturas em várias partes do Terceiro Mundo.
Cachaça brasileira, por exemplo, era mercadoria para compra de escravos
na África.
Fonte:
Revista Galileu Especial nº3 - Agosto/2003
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