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PANELA DE BARRO CAPIXABA

Saborosa Tradição

 

 

 

Tradição e Cultura deixando a comida mais gostosa...


 

 

As mais famosas e conhecidas panelas de barro do Brasil são as do Espírito Santo, consideradas um dos ícones da cultura popular capixaba. De fato, desde a sua origem – nas tribos indígenas que habitaram o litoral do Estado – até os dias de hoje, a técnica de sua confecção e a estrutura social das artesãs pouco mudou. A moqueca capixaba, a moqueca de garoupa salgada com banana da terra e a torta capixaba, três dos mais tradicionais pratos da cozinha do Estado, têm de ser feitas em panela de barro ou não ficam com o mesmo sabor, afirma-se unanimemente.

 

Goiabeiras e suas "Paneleiras"

Produzidas, sobretudo, na localidade conhecida como Goiabeiras Velha, situada na parte continental norte do Município de Vitória, à beira do canal que banha o manguezal e circunda a Ilha, onde, há pelo menos um século, vem dando sustento a dezenas de famílias, as panelas de barro têm uma indústria essencialmente doméstica, feminina e manual, cuja técnica passa de mãe para filha através das gerações.

São fabricados bules, caldeirões, formas para pizza, panela funda para arroz, caldeirão para feijão, assadeiras, panelinhas para molhos, caldos e pimentas, fogareiros, cofres, potes, travessas, mas o principal produto é a tradicional frigideira circular com tampa de alça (com diâmetros entre 22 e 28 cm, respectivamente para duas e quatro pessoas)
, onde são preparadas e servidas a moqueca e a torta capixaba, pratos típicos da culinária regional. As frigideiras grandes são chamadas mães, as pequenas filhas. Para facilitar o armazenamento, acondicionam as pequenas, dentro das grandes, formando uma "casada". Alguns modelos possuem duas ou quatro asas, chamadas de "orelhas", que facilitam o manuseio entre o fogão e a mesa. Usa-se também apoiar as panelas em armações de ferro, quando levadas à mesa.


O processo de produção das panelas de Goiabeiras conserva todas as características essenciais que a identificam com a prática dos grupos nativos das Américas, antes da chegada de europeus e africanos. As panelas continuam sendo modeladas manualmente, com argila sempre da mesma procedência e com o auxílio de ferramentas rudimentares. Depois de secas ao sol, são polidas, queimadas a céu aberto e impermeabilizadas com tintura de tanino, quando ainda quentes. Sua simetria, a qualidade de seu acabamento e sua eficiência como artefato devem-se às peculiaridades do barro utilizado e ao conhecimento técnico e habilidade das paneleiras, praticantes desse saber há várias gerações.
 

A técnica cerâmica utilizada é reconhecida por estudos arqueológicos como legado cultural Tupi-guarani e Una2, com maior número de elementos identificados com os desse último. O saber foi apropriado dos índios por colonos e descendentes de escravos africanos que vieram a ocupar a margem do manguezal, território historicamente identificado como um local onde se produziam panelas de barro. O naturalista Saint-Hilaire visitou a região em 1815 e fez a primeira referência a essas panelas, descritas como "caldeira de terracota, de orla muito baixa e fundo muito raso", utilizadas para torrar farinha e fabricadas "num lugar chamado Goiabeiras, próximo da capital do Espírito Santo". Goiabeiras é, portanto, o lugar onde esse ofício de fabricar panelas ocorre por tradição. Ali, foram encontrados sítios arqueológicos cerâmicos, remanescentes da ocupação indígena, no alto da pequena elevação conhecida como Morro Boa Vista e nas proximidades do aeroporto de Goiabeiras.

 

Ainda que Saint-Hilaire não tenha mencionado as frigideiras de moqueca, provavelmente na época de sua passagem já se faziam panelas para cozinhar frutos do mar, pois este é o alimento primordial e preponderante dos nativos da região desde tempos pré-históricos. Segundo informam os estudiosos da culinária e da identidade local, "Os sambaquis, que o protocapixaba deixou, em diversos pontos do litoral do Espírito Santo, (...) são, em sua essência, um amontoado de conchas partidas e de cascas de moluscos... Esses processos milenares de coleta de frutos do mar persistem entre nós com força imorredoura. Constituem, ainda hoje, cenas diárias nas praias, manguezais e pedras do litoral [do Estado]".4 Vestígios desses sambaquis, compostos de grande quantidade de lascas de quartzo e de conchas de ostras, foram identificados em 2005, durante a construção da nova pista do aeroporto de Goiabeiras.
 

O consumo permanente e reiterado das moquecas e da torta da Semana Santa, valorizado pelos capixabas como uma referência na formação de sua identidade cultural, é provavelmente uma das principais razões da continuidade histórica da fabricação artesanal das panelas de barro, apesar das notáveis transformações urbanas ocorridas. A cidade cresceu e alcançou Goiabeiras, que se transformou em um bairro urbanizado de Vitória. Mas ali continuam sendo feitas, como sempre, as panelas pretas. Enquanto a cidade crescia, as paneleiras iam progressivamente se profissionalizando e fazendo do seu ofício a mais visível atividade cultural e econômica do lugar.

 

As artesãs, cerca de 120, que, antes,  trabalhavam individualmente em suas próprias casas, atualmente, mais organizadas, estão agrupadas na Associação das Paneleiras de Goiabeiras, uma espécie de  cooperativa. Trata-se de um galpão onde cada uma, independentemente, produz e comercializa suas próprias peças. Sob o aspecto econômico, a renda que auferem, é significativa no contexto da manutenção de suas famílias.

 

A Associação das Paneleiras já se tornou um dos pontos turísticos da cidade, sendo visitada, regularmente, por turistas interessados em adquirir as peças e ver como as mesmas são confeccionadas. A panela de barro é reconhecida nacional e internacionalmente como objeto de arte popular e, em 20 de dezembro de 2002, a inscrição do Ofício das Paneleiras de Goiabeiras. inaugurou o Livro de Registro dos Saberes (instrumento legal de reconhecimento e preservação dos bens culturais de natureza imaterial, criado em agosto de 2000) e foi declarado Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

 

Como evento promocional de seu ofício e de seus produtos, destaca-se a Feira Anual das Paneleiras de Goiabeiras, realizada desde 1987 pela Associação das Paneleiras, com o incentivo da Associação Espírito-Santense de Folclore e o apoio financeiro do Governo Estadual e da Prefeitura Municipal de Vitória. Durante os quatro dias da feira, elas vendem as panelas, cozinham e servem moquecas, em meio a apresentações de cantores populares e bandas de congo.

Para que você tenha certeza que está adquirindo um produto autêntico, a Prefeitura do município de Vitória criou o SELO DE QUALIDADE DAS PANELAS DE BARRO, que lhe garante a qualidade do produto. Exija o Selo de Autenticidade, e leve para casa uma panela que conservará a comida quente por muito tempo, pois ela é refratária.

 

A procura crescente pelo produto vem estimulando sua imitação por técnicas que incluem o emprego do torno e do forno, o que aumenta o ritmo da produção e barateia o preço final do produto concorrente. Embora se assemelhe na cor e na forma às panelas de Goiabeiras, essas outras não oferecem a mesma resistência daquelas ao impacto e à temperatura, nem carregam a identidade e o selo da tradição.

 



A PANELA DE BARRO DE GOIABEIRAS PASSO A PASSO:

 

 

 

 

Associação das Paneleiras de Goiabeiras

 

 

Situado à margem do manguezal, o atual Galpão da Associação das Paneleiras foi inaugurado em 1991. Foi construído pela Prefeitura, para substituir o primeiro (de 1987) que era constantemente alagado com a subida da maré. Tem uma área coberta de 432m2, projetada para guardar e preparar as matérias-primas e abrigar as mesas de trabalho para a modelagem, secagem e polimento das panelas, e os depósitos e bancadas para os produtos prontos. No terreiro ao lado do Galpão, na margem do manguezal, é feita a queima das panelas. A produção é constante e todas as peças produzidas são vendidas aos turistas e à população da Grande Vitória. As vendas são feitas diretamente no galpão da Associação das Paneleiras e nas lojas de artesanato.
 

 

 

 

 

 

 

Associação das Paneleiras de Goiabeiras
Rua das Paneleiras, 55,
CEP 29075-105 - Goiabeiras - Vitória - ES
Fone: (27) 3327-0519

Para saber mais, clique aqui.

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

O barro que vem do Mulembá

 

 

A tinta que vem do mangue

 

 

 

O ritual do açoite que vem da tradição

 

 

 

A  produção das panelas de barro de Goiabeiras compreende inúmeras atividades, praticadas em várias etapas, seguindo um verdadeiro ritual. Todas elas são de pleno domínio das mestras do ofício, que até pouco tempo as realizavam diretamente. Hoje são  desempenhadas por diferentes executantes, ficando o trabalho de coleta e transporte das matérias primas mais freqüentemente a cargo dos homens. Confira as etapas da confecção da legítima panela de barro, fabricada pelas paneleiras de Goiabeiras,:
 

BARRO

A argila é a principal matéria-prima e vem do Vale do Mulembá, no bairro de Joana D´arc, na Ilha de Vitória. Essa é uma tarefa para os homens. São eles que experimentam o barro com os dedos para ver se está bom, então escavam e retiram o barro com a enxada até, aproximadamente, 1 metro de profundidade. O barro é, então, molhado, pisado e dividido em bolas, com cerca de 15 kg cada. As bolas são transportadas em caminhões até o local de trabalho, galpão ou quintal, onde são vendidas. Um tirador de barro costuma fazer de 140 a 150 bolas de barro por dia. Antes de ser usada ela passa por um processo de limpeza denominado "escolha", que consiste na retirada de impurezas, como pedras e restos de vegetais. Em seguida, devidamente envolta em plástico para manter a umidade, fica armazenada, descansando, por uns tempos antes de ser usada.

 

Comparativamente a outras, a argila do Vale do Mulembá é bastante arenosa. Análises da granulometria do barro indicaram a seguinte composição média: 40% de argila, 26% de silte, 13% de areia fina, 13% de areia média e 8% de areia grossa. É essa composição que condiciona o modo de fazer9 - sem torno, nem forno - e dota o produto de uma série de atributos, como a menor ocorrência de rachaduras e a maior rapidez no processo de secagem, o aquecimento em tempo relativamente mais curto e a boa resistência ao fogo de 600°C, o que não deixa que as panelas estourem na fogueira.
 

TINTA

A coloração escura das panelas é obtida por meio da impregnação do tanino, uma tinta produzida com a casca do mangue vermelho macho (Rhizophora mangle), árvore que lembra um polvo com tentáculos cravados na lama dos mangues da região, responsável pela coloração negra e, também, pela resistência das panelas, pois as imuniza contra fungos.

 

Para obter o tanino que tinge as panelas, o casqueiro, sempre na maré baixa, entra no manguezal com sua canoa, escolhe uma árvore e bate na casca até soltá-la do tronco. Depois de socadas, as cascas do mangue-vermelho são maceradas e postas de molho na água por alguns dias, transformando-se na tintura de tanino que é aplicada nas panelas após a sua queima.

 

Com um soquete são dadas algumas batidas no tronco da árvore e a casca se solta e cai em baldes. Depois, as lascas são picadas, até virarem farelo e colocadas de molho em água por um dia. Importante salientar que esta prática na região não é predatória, havendo uma clara consciência de preservação por parte dos "casqueiros". Neste sentido só retiram a casca de um dos lados do tronco, em pouca quantidade, procedimento que não prejudica a árvore e o ecossistema do manguezal.

MODELAGEM

Para cada tipo de panela é tirada uma quantidade de barro, que vai ser modelado. O barro escolhido é colocado sobre uma tábua. A modelagem das panelas é feita manualmente, sem o uso do torno de oleiro. A parede vai sendo levantada, com a forma desejada, usando-se a técnica de roletes ou diretamente, escavando a argila e "puxando a panela", como dizem, através de movimentos com as mãos, tanto circulares como verticais, abaulando, arredondando, definindo o formato da peça, a concavidade e a espessura com a ajuda de rudimentares ferramentas - pedras lisas, cascas de coco,
coité (pedaço de cabaça que, molhada em água, é utilizada para alisar a parte interna das peças) e objetos similares. Aos poucos, a panela toma a forma básica. Com a faca são retiradas as impurezas e com o arco, os excessos de argila.


ACABAMENTO

É feito algumas horas após a modelagem, quando o barro não está nem úmido, nem seco. Consiste em moldar as "orelhas" e as "asas" das panelas e raspar o fundo para arredondá-las. As alças das tampas e as orelhas das panelas - pequenas pegas presas à borda - são feitas com roletes de barro e fixadas com os dedos. As paneleiras utilizam água para colar as orelhas e dar acabamento às panelas. Isto feito, as panelas são postas novamente para secar até o dia seguinte, quando será trabalhado o fundo. Depois de totalmente modeladas, as panelas ficam em lugar ventilado e protegido do sol até secarem completamente.

POLIMENTO

Essa etapa é realizada com as peças totalmente secas. As panelas e as tampas, depois de totalmente secas e antes da queima, são polidas manualmente pelo atrito de seixos rolados (pedra de rio) interna e externamente. O objetivo é torná-las lisas e resistentes.

QUEIMA

Após o polimento, é efetuada a queima, não em forno, mas em fogueiras a céu aberto. (método bastante primitivo adotado por tribos indígenas). O processo consiste em empilhar as panelas sobre grossas toras de madeiras, formando o que chamam de "cama", para permitir, deste modo, a circulação do ar pela parte inferior. Nas laterais e em cima, são colocados pedaços menores de madeira. O fogo é ateado em uma das extremidades, na "cabeceira da cama", que com a ajuda da ventilação natural se expande por todo o conjunto. Dependendo do número de peças, o cozimento pode durar uma ou muito mais horas (em geral de duas a três horas).

Essa queima é feita de forma ecologicamente correta, já que não desmata árvores da região. Para fazer o fogo usam-se restos de madeiras, principalmente da construção civil. Apesar deste tipo de madeira nem sempre possuir o melhor poder calorífico, o resultado final é satisfatório desde que o calor produzido seja intenso, uniforme e dure o tempo necessário.

AÇOITE

Após a queima, as panelas são retiradas do fogo com uma vara com dois ganchos na ponta e, ainda em brasa, são açoitadas com a tinta. Isso é feito com uma vassoura de gravetos finos (um pequeno maço de "vassourinha-do-campo", arbusto também conhecido como muxinga), que é molhada no tanino e batida com rapidez em toda a peça.
Como resultado, o tanino penetra nos poros da cerâmica, cobrindo fissuras e tornando-a impermeável, servindo também para impedir a proliferação de fungos, que, com o correr do tempo, esfarelam o barro. A coloração escura da panela permite uma melhor concentração do calor, facilitando o cozimento e a conservação dos alimentos.

 

 

 

 

 

Veja todos os vídeos.

 

 

 

 

como se produz

Panelas de Barro em Goiabeiras


No vídeo abaixo, assista como são produzidas as panelas de barro das Paneleiras de Goiabeiras.

 

 

 

Clique aqui e veja esse vídeo ampliado

 

 

 

 

 

 

As panelas emergentes de Guarapari

A singularidade das panelas de barro fez com que se tornassem conhecidas nacionalmente e é difícil que algum turista passe pelo Espírito Santo sem levar pelo menos uma como lembrança das férias. Enquanto as paneleiras de Goiabeiras se reúnem no galpão em ritmo de trabalho peculiar e continuam divulgando o trabalho artesanal em feiras de norte a sul do Brasil, do outro lado do continente, em Guarapari, a 58km de Vitória, cidade que concentra o maior pólo turístico do verão capixaba, a linha de montagem ganhou adeptos e hoje o município conta com cerca de dez fábricas de panelas.

 

As panelas de Guarapari são feitas com um barro encontrado no município de Viana, que lembra o barro do vale de Mulembá; passam pelo processo de torno a pé, torno elétrico e forno industrial. A cor das panelas de Guarapari é mais escura do que a de Goaiabeiras e o acabamento é mais uniforme, por causa do torno. A utilização de tinta artificial caiu em desuso nos últimos anos porque deixava sabor na comida e durante algum tempo as panelas chegaram ao consumidor avermelhadas, bem mais claras do que as de Goiabeiras. A cor mais escura, bastante parecida com a da panela artesanal, é conseguida, hoje, com a fumaça de toras de eucaliptos verdes, o retoque final antes da panela sair do forno e chegar às mãos do consumidor.

 

As "paneleiras", como são conhecidas as artesãs que produzem as peças, vendem os produtos ao longo da Rodovia do Sol, onde existem dezenas de fabriquetas de panela de barro. Em algumas delas, você pode até ver os artesãos moldando a argila. Outras levam suas panelas para a Praça de Artesanato no centro da cidade.

 

 

 

 

 

 Panelas de Guarapari

 

 

 
 

 

Foto aérea de Guarapari

 

 

 

 

 

 

 

Diferenças entre as panelas de Goiabeiras e Guarapari:

 

1- A panela de Goiabeiras é preta, puxando para o vermelho, e apresenta manchas tênues, enquanto a de Guarapari é preta uniformemente.

 

2- A de Goiabeiras é artesanal, meio tortinha, mais gordinha aqui, mais magrinha ali; assimétrica e sua tampa tem um lugar específico que encaixa melhor.

 

3- A de Guarapari tem medidas exatas, simétricas e a tampa encaixa perfeitamente de qualquer maneira.

 

4- As alças das panelas e das tampas também se parecem muito, mas as de Goiabeiras novamente são mais gordinhas e assimétricas, enquanto as de Guarapari são mais magrinhas e simétricas.


5- O preço das panelas artesanais é ligeiramente acima do cobrado pelas panelas feitas em torno.

 

 

 
 

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Atualizado em: 05 agosto, 2010.