CAFÉ LE PROCOPE
Virgínia Brandão
Na segunda metade do
século 17, sob o reinado de Luis XIV, o rei sol, a cidade de Paris, que
já contava com uma população de meio milhão de habitantes, vivia uma
época de efervescência cultural e científica, e de grandes melhoramentos
urbanos - datam dessa época a construção de Les Invalides; a plantação do
primeiro alinhamento de árvores dos Champs Elisées; a construção da
Place Vendome, da Place des Victoires, do Hospice de la Salpêtrière, e
de muitas outras obras e monumentos que embelezam a cidade até hoje.
A gastronomia também
vivia um momento importante, com a nobreza francesa e seus cozinheiros
renovando os gostos e modos à mesa, que ganhava novos utensílios
(começava o uso de talheres), novos cerimoniais (a comida passava a vir
a mesa numa seqüência de pratos e não mais tudo de uma só vez) e novas
receitas e produtos como o café, que chegara à Europa ocidental, através
de Veneza, em 1615, e à França, em 1644 pelas mãos de comerciantes de Marseille.
Como aconteceu em todos os países onde chegou, o café, apesar de seu
gosto amargo (o açúcar só entraria depois nessa história), conquistou o
paladar dos franceses. Em 1669, o "vinho do Islã", como então era
chamado o café, foi apresentado pelo embaixador da Turquia ao rei Luis
XIV que se apaixonou pela bebida a ponto de prepará-la pessoalmente,
mesmo para seus convidados. Sendo tão importante para o soberano, o café
virou moda na corte.
Foi nesse cenário,
em 1686, num dos mais agitados pontos do Faubourg Saint Germain, a Rue
des Fossés Saint-Germain (atual l'Ancienne Comédie), lugar de bons
albergues e lojas de luxo, que o italiano Francesco Procopio dei
Coltelli inaugurou, com toda pompa e circunstância, o legendário Café
Le Procope - estabelecimento que entrou para a História como primeiro café
literário e primeira sorveteria da França e, também, por ter sido o
reduto dos mais importantes personagens da intelectualidade, política e
arte francesas. Até hoje, no mesmo endereço, é um dos programas
imperdíveis da Cidade Luz.
Instalado numa
antiga casa de banhos turca, cuja arquitetura interna em estilo oriental
foi sabiamente preservada e coberta de espelhos e finas tapeçarias, o
Café Le Procope esbanjava luxo com seus belos lustres de cristal, suas
mesas de mármore e atendimento sofisticado - criados de peruca, avental
e luva brancos cruzavam o salão carregando bandejas de prata.
Monsieur Procope,
como passou a ser chamado em Paris, era um homem empreendedor, com
uma excelente visão comercial e muitos talentos. Siciliano,
provavelmente de Acitrezza, uma aldeia de pescadores na região da
Catânia, ele chegara à cidade, em 1660, e amealhara dinheiro como vendedor
autônomo de café em grãos, experiência que lhe conferiu um considerável
conhecimento sobre o produto. Por outro lado, trouxera de sua terra
natal um invento que herdara de seu avô, um pescador que nas horas vagas
se dedicava às invenções, e, determinado a melhorar o sorvete que se
fazia até então, Procope aperfeiçoou o invento do avô e inovou nas receitas,
substituindo o mel pelo açúcar. Tanto fez, que conseguiu
homogeneizar
os
ingredientes, gerando um sorvete muito similar ao que conhecemos hoje.
Diz-se que, apesar de perito em café e sorvete, a sua grande arte estava,
mesmo, era em mesclar ervas e especiarias em licores e aguardentes.
O fato é que Monsieur Procope reuniu tudo o que sabia e, rapidamente, conquistou a clientela com
a excelência das bebidas e dos sorvetes (80 sabores) que servia, o
charme do lugar e seu serviço refinado e atencioso. A proximidade com a Comédie Française, que se instalara bem em frente ao seu café, em 1689,
(ficou ali até 1770), transformou o estabelecimento numa espécie de
ante-sala do teatro, garantindo-lhe um excelente movimento. Por mais de
200 anos, todos os que possuíam um nome, ou pretendiam vir a possuir, no
mundo das letras, artes e política, freqüentaram o Café Le Procope.
La Fontaine, Molière
e Racine eram habitués. Piron, Destouches, d'Alembert, Voltaire,
Jean-Jacques Rousseau, Diderot e inúmeros outros literatos fizeram do
Le Procope uma sucursal da
Académie Française -
pode-se dizer que a Enciclopédia nasceu sob os seus lustres cristal. Foi
ali, também, que Benjamin Franklin trabalhou na redação da declaração de
independência dos Estados Unidos.
Durante a revolução
francesa, o Le Procope foi rebatizado de Café Zoppi e foi tornou-se o lugar
de reunião dos Cordeliers. Era ali que Danton, Hébert, Marat, Desmoulins
reuniam os seus partidários e falavam de reformas, de guilhotina, de
liberdade. A noite, para demonstrar as suas teorias liberais, os membros
do clube queimavam, em frente à porta do estabelecimento, os jornais que
tivessem julgado demasiado moderados. As palavras de ordem para os
ataques às Tuileries, em 20 de junho e 16 de agosto de 1792, partiram do
Le Procope.
O lugar-tenente
Napoleão Bonaparte muitas vezes deixou seu chapéu no Le Procope, como
garantia da conta. Como um exemplar decora a casa até hoje, exposto numa
vitrine, supõem-se que, pelo menos uma vez, o futuro Imperador não tenha
resgatado a dívida. Mais tarde, Balzac, Victor Hugo, Verlaine,
George Sand, Anatole France, e tantos outros se juntaram à lista das
celebridades que, ainda hoje, atraem turistas do mundo inteiro.
Ao longo de quase
200 anos, o Café Le Procope gozou de grande prestígio e celebridade mas,
em 1874, a casa sucumbiu à concorrência e foi à falência. Voltou a
funcionar algumas décadas depois, já como restaurante, sem o mesmo
brilho de sua fase inicial, Apesar de seu valor histórico, era apenas
mais um restaurante entre tantos outros, freqüentado por alguns
senadores perdidos e por estudantes que ignoravam a história do lugar.
Mas em 1987,
foi adquirido pelo grupo Les Frères Blanc, dos renomados restaurateurs
Pierre e Jacques Blanc, conhecidos como embaixadores da vida parisiense,
que com o conceito "Brasserie de Luxo", restauraram e revitalizaram
diversos restaurantes históricos de Paris. Além do Le Procope, eles
também estão a frente das casas Au Pied de Cochon, Chez Jenny, Le Petit
Zinc, L'Alsace, La Fermette Marbeuf, Charlot Roi des Coquillages, Le
Grand Café de l'Opéra, Brasserie Lorraine e La Taverne, servindo, no
total, 10 mil refeições por dia.
Depois de uma grande
reforma, o Le Procope foi totalmente restaurado, recuperando o esplendor de sua decoração
original. Símbolo do passado, a mesa de Voltaire, instalada hoje num dos
salões do primeiro andar da casa, testemunha da sua perenidade e
prepara-se para acolher novas glórias. Visitado por turistas do mundo
inteiro, o local continua a receber celebridades, sendo point de
jornalistas, políticos, gente de teatro e artistas em geral.
Oferece uma cozinha
francesa tradicional, típica de Brasserie, com um vasto cardápio a base
de ingredientes frescos, em que se destacam os frutos do mar. Há também
muitas opções de carnes, peixes, aves e sobremesas, para agradar a todos
os gostos.
Em 1992, o Café Le
Procope foi tombado como Monumento Histórico pela prefeitura da cidade.
Indo a Paris, não
deixe de visitá-lo!