Andar a pé pelas ruas das grandes cidades
brasileiras é um "tormento" gastronômico, especialmente quando estamos com
fome. As opções são várias, para todos os gostos: carrinho de pipoca, de
milho verde, quiosque de coco gelado, barraca de pastel, de acarajé, picolé,
espetinho, cachorro quente. Sem contar nas ofertas vindas diretamente das
mãos de vendedores ambulantes nas ruas e praias do Brasil.
Mas, quando a tentação é grande, não devemos
nos guiar apenas pela aparência dos alimentos. "Ao optar por comprar comida
na rua, corremos o risco de ingerir alimentos sem qualidades nutricionais e,
pior, corremos o risco de ingerir alimentos contaminados", alerta a
endocrinologista e nutróloga Ellen Simone Paiva.
Mas quem se lembraria disso ao parar num acostamento do litoral de Santa
Catarina, em pleno sol do mês de fevereiro de 2005, e vislumbrar a
possibilidade de tomar um caldo de cana geladinho? Ninguém... Até que um
surto de Doença de Chagas fez mais de 25 vítimas, sendo seis fatais. Em
2002, diversas matérias veiculadas pela imprensa apontavam que 100% dos
acarajés de Salvador estavam contaminados com coliformes fecais, segundo
pesquisas da Universidade Federal da Bahia. A denúncia resultou no
estabelecimento de parcerias entre a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária, Anvisa, Sebrae, Sesi e Senai para criar o Programa do Alimento
Seguro - PAS. Na época, foi criado um selo de qualidade para disseminar boas
práticas no preparo do alimento, com a capacitação de centenas de
trabalhadoras filiadas à Associação das Baianas do Acarajé.
Como escolher o que comer na rua?
"Diante de tudo o que foi exposto, nós, evidentemente, não comeríamos na
rua. Mas não quero ser terrorista. Não quero tirar o prazer de ninguém de
tomar um côco gelado na praia", afirma a médica, que também integra o
International Colleges for the Advancement of Nutrition, ICAN..
Então, vamos lá! Afinal, quais os alimentos que podemos consumir na rua?
Pastel - Um bom pastel de feira ninguém resiste. São muito calóricos,
mas muito saborosos. Não devem ser consumidos rotineiramente, mas aboli-los
do cardápio seria um pecado. O risco das toxinas liberadas pela reutilização
do óleo em frituras sempre existe. "O consumidor deve procurar verificar se
os funcionários da barraquinha estão vestidos com roupas adequadas e se o
óleo utilizado para a fritura está limpo. Se chegar tarde na feira será
muito arriscado pois o óleo estará sendo utilizado desde cedo ", alerta a
médica. "Prefira os pastéis mais simples, como os de queijo ou de pizza
(queijo e tomate). Pastéis de camarão, bacalhau e palmito, apesar de muito
saborosos, são mais arriscados pela perecibilidade do recheio", completa.
Água de Coco - A água de coco gelada é o grande barato nas praias e
cidades, principalmente quando a temperatura aumenta. Seu poder de
hidratação é bárbaro, pois contém potássio, frutose e a água básica. Seu
risco de contaminação é menor quando ingerido no próprio coco. "As prensas
para drenagem da água para os frascos incluem riscos a mais. Aquele facão
usado na abertura do côco, eu não gosto nem de pensar para não me tirar o
prazer...", afirma a nutróloga.
Cachorro-quente - O cachorro-quente virou uma febre nas ruas de todo
o Brasil. São tantos temperos e recheios que fica difícil falar sobre ele.
"Apesar de saboroso, esse alimento é muito calórico e com saciabilidade
rápida, ou seja, você fica logo satisfeito. Embora muitos comam dois ou três
num almoço, em pouco tempo a fome bate novamente", explica a
endocrinologista. Seu teor de calorias é muito alto, não pelo pão, como
muita gente pensa, mas pela soma dos recheios, como batata frita, bacon,
maionese e os molhos em geral.
Frutas - "As frutas vendidas cortadas e expostas em bancas são
proibidas pela Vigilância Sanitária pelo alto grau de contaminação. Apesar
de saudáveis, seu consumo é muito arriscado", enfatiza Ellen.
Sanduíche natural - "O problema dos sanduíches naturais é que a
maioria tem maionese, que de natural não tem nada. Aliás, mesmo feita
artesanalmente, a maionese é o alimento com maior risco de contaminação pela
salmonela. Maionese nem na casa da mãe da gente, quanto menos na rua",
defende a médica.
Churrasquinhos - Os churrasquinhos são uma tentação nos finais de
noite, após a balada, no boteco da esquina, quando chegamos à noite morrendo
de fome ou no sábado, embalando o chopinho. Passados na farinha, com molho
de tomate e cebola... Ai que vontade que dá! "Como já vêem cortados, não dá
para checar a carne utilizada. Passo longe para não cair em tentação",
afirma.
"Comer na rua requer bom senso. Todos estes alimentos saborosos podem fazer
parte do cardápio de uma pessoa saudável, desde que sejam consumidos
esporadicamente. Quando passam ao consumo rotineiro, eles podem causar
comprometimento na qualidade nutricional de nossa alimentação", conclui
Ellen.
Dia Mundial da Alimentação
No dia 16 de outubro de cada ano é celebrado o Dia Mundial da Alimentação
para comemorar a criação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura
e a Alimentação (FAO), em 1945. O objetivo do Dia Mundial da Alimentação é
conscientizar o conjunto da humanidade sobre a difícil situação que
enfrentam as pessoas que passam fome e estão desnutridas, e promover em todo
o mundo a participação da população na luta contra a fome.