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Programa brasileiro de
educação alimentar vira modelo para AL
Por Vítor Cavalcanti
Agência Estado
A má utilização dos alimentos é um problema a ser combatido no
Brasil. Dados da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab)
estimam que até 30% dos hortifrutigranjeiros sejam desperdiçados
da colheita até chegar à mesa do consumidor. Diversas ações
acontecem em todo o País com o intuito de conscientizar as
pessoas e ensiná-las a fazer melhor uso dos produtos. Um deles
se destaca por sua abrangência, é o "Cozinha Brasil", programa
de educação alimentar mantido pelo Conselho Nacional do Serviço
Social da Indústria (Sesi). Até o momento, pelo menos 300 mil
brasileiros foram beneficiados. O sucesso da iniciativa chamou a
atenção de organizações de outros países e, agora, a idéia vai
extrapolar as fronteiras brasileiras.
Através de um convênio firmado com a Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a ser assinado no
próximo dia 6 de outubro, no Chile, o programa será levado para
outras nações da América Latina. O primeiro país a ser
beneficiado é o Uruguai, que já havia manifestado interesse na
iniciativa. Representantes do Sesi e de organizações do país
vizinho iniciaram as conversações. Será uma espécie de
projeto-piloto. "Fizemos uma reunião com a prefeitura de
Montevidéu e várias ONGs e apresentamos o programa. Um grupo de
lá esteve no Rio Grande do Sul e passou alguns dias com a nossa
equipe para conhecer a logística da nossa unidade móvel",
informa Jair Meneguelli, presidente do Conselho Nacional do
Sesi.
Essa parceria faz parte de uma proposta maior da FAO. A
organização quer envolver, além dos governos, toda a sociedade
civil organizada (igrejas, ONGs, setor empresaria) no projeto
"América Latina Sem Fome". De acordo com o coordenador da FAO
para América Latina, José Graziano da Silva, entre as metas do
milênio, estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU),
está a redução da fome pela metade no mundo. "Mas a América
Latina produz três vezes as necessidades alimentares de sua
população. Essa região pode se propor a erradicar a fome."
A partir desse convênio, segundo Meneguelli, ficará mais fácil
atingir outros países com o programa brasileiro. De acordo com
ele, existe a idéia, inclusive, de se levar o projeto para
países da África. Mas, isso será uma segunda etapa do programa.
Inicialmente, o projeto tem como meta, até 2008, atingir
Uruguai, Paraguai e Bolívia - esses dois últimos pelos altos
níveis de desnutrição. Futuramente, a proposta poderá ser
estendida a outros países, dependendo da demanda de cada nação.
"Isso entra no grupo de programas de educação alimentar. A
iniciativa não é restrita aos pobres. Todo mundo come mal e todo
mundo desperdiça", avalia Graziano.
Como explica o coordenador da FAO, a organização quer usar o
aprendizado e a metodologia. Isso será proporcionado através de
um intercâmbio. Os interessados virão até o Brasil e passarão
uma semana em alguma unidade do programa. No encontro, serão
apresentados o projeto e os mecanismos para melhor se aproveitar
os alimentos. "Tudo será custeado pela organização. A idéia é
que essas pessoas voltem aos seus países e se tornem
multiplicadores", afirma.
CARTILHAS SERÃO ADAPTADAS
O programa brasileiro utiliza como base dos cursos o livro
"Alimente-se Bem Com R$1", editado pelo Sesi-SP, que, com os
recursos da FAO, será adaptado para a cultura de cada nação. O
Sesi utiliza como base das receitas os pratos típicos
brasileiros, por isso a necessidade das alterações. "No Uruguai,
já estamos financiando a contratação de consultores para que
seja feito um levantamento dos pratos mais comuns e, a partir
deles, confeccionado um livro similar ao brasileiro", avisa
Graziano.
"COZINHA BRASIL"
O programa "Cozinha Brasil" surgiu inicialmente na unidade
paulista do Sesi. Em 2004, a iniciativa ganhou corpo e, a partir
de um convênio com o Ministério do Desenvolvimento Social, foi
expandido para todo o País. Atualmente, o programa conta com 33
unidades móveis. Qualquer pessoa pode participar dos
treinamentos que seguem dois modelos: "Curso de 10h - Educação
Alimentar" e "Curso de 24h - Para Multiplicadores". As
inscrições podem ser feitas pela internet no site
www.cozinhabrasil.org.br
Embora a idéia já esteja consolidada no Brasil, Meneguelli diz
que algumas novidades devem ser implementadas. "Estamos
negociando um convênio com o Ministério da Educação para
levarmos o projeto às merendeiras das mais de 120 mil escolas
públicas do País", afirma. Todas as receitas do livro utilizado
pelo projeto foram supervisionadas por profissionais da
Universidade de São Paulo (USP). Além dessa iniciativa, o
presidente do Conselho Nacional do Sesi lembrou que existe a
intenção de se incluir receitas para pessoas com diabete.
ALIMENTOS DESPERDIÇADOS
ALIMENTARIAM 19 MILHÕES DE PESSOAS
A desnutrição atinge cerca de 6% das crianças brasileiras com menos de cinco
anos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Um
problema que, na teoria, não deveria ocorrer no Brasil, um dos maiores
produtores de alimentos do mundo. De olho nessa problemática é que a
Organização Não-governamental Banco de Alimentos trabalha desde 1999.
Atualmente, a entidade consegue arrecadar 35 toneladas de alimentos por mês.
Mais de 21 mil pessoas são beneficiadas diariamente com esses alimentos que
seriam descartados por supermercados, mercados municipais, entrepostos,
entre outros parceiros. "As pessoas pensam que coletamos comidas 'batidas',
mas só recolhemos alimentos de boa qualidade e que teriam como destino o
lixo", explica a presidente da ONG Luciana Chinaglia Quintão.
O projeto compreende três processos: coleta humana (arrecadação de alimentos
em mercados, indústrias e até hortas); ações educativas em comunidades
carentes (ensina-se como manusear, armazenar e consumir os alimentos, além
de técnicas de higiene); e programa educativo em escolas privadas (voltado
para estudantes de 4 a 18 anos).
Mesmo estando restrito ao Estado de São Paulo, os números da ONG Banco de
Alimentos são bastante interessantes. Atualmente, 54 entidades recebem os
alimentos arrecadados. Uma equipe de nove pessoas cuida de todo o processo.
De acordo com Luciana, quatro carros percorrem os pontos de coleta durante
todo o dia. A presidente da ONG pretende expandir o projeto, mas são
necessários mais parceiros. "Fazemos milhares de atendimentos todos os
meses. Hoje, as pessoas nos procuram, mas está difícil. Temos 110 entidades
cadastradas em uma lista de espera", informa.
A presidente da ONG faz questão de avisar que não distribui alimentos nas
ruas e diz ainda que um dos requisitos para que a entidade possa receber as
doações é ter capacidade de armazenar os alimentos. No País que é campeão no
desperdício de alimentos (26 milhões de toneladas por ano) iniciativas como
esta são sempre bem-vindas. "Não dá pra ficar de braço cruzado, as pessoas
fazem parte da mudança. Com o que é jogado fora no Brasil diariamente, daria
para alimentar 19 milhões de pessoas com três refeições básicas", analisa.
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