| |
CARNE BOVINA
VALOR NUTRITIVO
O valor nutritivo de
um alimento é o resultado de seu efeito sobre a saúde de quem o
consumiu. Em relação à carne bovina, assim como para os demais
alimentos, é determinado pela combinação de três fatores: sua
composição, o modo de preparo, e o estado de saúde do indivíduo
consumidor. Formas de preparo muito severas, com excesso de calor,
causam modificações na composição da carne, com perdas de nutrientes e,
eventualmente, formação de compostos com potencial ação nociva. Essa nova
composição modifica o efeito do alimento sobre o indivíduo, alterando,
portanto, seu valor nutritivo. Aqui, vamos tratar,
exclusivamente, do valor nutritivo a
partir da composição da carne, ou seja, do seu teor em nutrientes e
energia.
COMO CONHECER O
VALOR NUTRITIVO DA CARNE?
O conhecimento do
primeiro dos três fatores, ou seja, da composição da carne, se não
permite determinar com rigorosa precisão o seu valor nutritivo, é
suficiente para sua estimativa com relativa segurança. Os principais
constituintes da carne bovina com interesse nutricional são a gordura,
diversas vitaminas e minerais, e proteínas. Tomemos como base, a
contribuição da carne bovina para o fornecimento destes nutrientes em um
dia alimentar, tomando como base as necessidades de um adulto do sexo
masculino, de 19 a 24 anos de idade:
A quantidade de
calorias - energia - que 100 g de carne bovina fornece depende muito do
seu teor de gordura. Cortes magros, cozidos, fornecem cerca de 186
calorias em 100 g; já um corte com maior teor de gordura podem fornecer
mais de 300 calorias quando preparados.
A carne bovina
magra, similar à carne branca de aves (sem pele) e ao lombo suíno, são
fontes importantes de proteína e devem fazer parte de uma dieta
balanceada com frutas, vegetais e cereais para uma alimentação saudável.
Convém salientar que a carne bovina é considerada um alimento de alto
valor nutricional, pois além de ser uma excelente fonte de proteína, ela
contém vários nutrientes essenciais. Ela é rica nas vitaminas do
complexo B (B1, B2, B6 e B12), niacina e ácido pantotênico. Possui
também altos teores dos minerais K, P, Mg, Fe e Zn, além de nove
aminoácidos essenciais e altas concentrações de ácido linoléico
conjugado
GORDURA
As gorduras da
dieta fornecem ácidos graxos, e na carne, estão presentes boas
quantidades dos ácidos palmítico e esteárico, ambos saturados - ou seja,
que apresentam ligações simples entre seus carbonos, representando cerca
de 27 e 13% do total, respectivamente. Outro tipo de ácido graxo
presente na carne em boa concentração é o ácido oléico, conhecido por
ser o monoinsaturado mais abundante no azeite de oliva: na carne bovina,
ele representa cerca de 40 % do total de ácidos graxos.
| |
|


|
|
|
As carnes bovinas
apresentam diferentes teores de gordura, variando de 5% a 25% do seu
peso. Portanto, para um adulto, o consumo de 200g de carne por dia pode
contribuir com 12% a 60% das necessidades diárias de gordura. Uma das
discussões mais acaloradas sobre a fração gordura da carne refere-se ao
seu teor de colesterol, motivada pelo receio do seu efeito sobre o
desenvolvimento ou agravamento de doenças coronarianas, e ao
fornecimento de ácidos saturados. O colesterol é um composto necessário
para o organismo, envolvido com a síntese de hormônios e sais biliares,
de tal forma que há mecanismos para síntese endógena mesmo em sua
ausência da dieta. Ou seja, o metabolismo é capaz de produzir
colesterol. Contudo, a elevação dos níveis de colesterol circulante é
preocupante pois está demonstrada sua associação com doenças crônicas da
circulação, como a aterosclerose, resultado da formação de placas de
colesterol que diminuem o calibre de vasos sangüíneos, com conseqüências
graves como o infarto e acidentes vasculares. Em 100g de carne bovina
estão contidos aproximadamente 53mg de colesterol. Depois do preparo, o
mesmo peso fornece aproximadamente 80 a 90mg. Recomenda-se que a
ingestão diária de colesterol por um adulto seja próxima a 250 ou 300mg.
Em relação aos ácidos saturados, a preocupação maior recai sobre o ácido
palmítico, uma vez que o esteárico não demonstra efeitos significativos
sobre os níveis de colesterol circulantes.
Estudo conduzido por
Pauline Ippolito e Alan Mathios, economistas da FEDERAL TRADE COMMISSION
dos Estados Unidos, e divulgado em 1996, mostraram evidências
substanciais de que o consumo de gordura, gordura saturada e colesterol
caiu significativamente, naquele país, entre 1977 e 1990, ao mesmo tempo
em que aumentou o conhecimento do consumidor sobre os efeitos da dieta
sobre a saúde. Este talvez seja um indicador de que as informações sobre
dieta devam ser claramente difundidas, para orientar adequadamente
opções alimentares.
PROTEÍNA
Proteínas são
estruturas constituídas por diferentes combinações de cerca de 20
aminoácidos, oito dos quais necessariamente devem ser fornecidos por
meio dos alimentos pois não podem ser produzidos pelo nosso metabolismo,
e por esta razão são chamados de essenciais. Uma proteína de boa
qualidade deve fornecer todos os aminoácidos essenciais em quantidades e
proporções adequadas. Esta é uma situação que não acontece nos alimentos
de origem vegetal, e difere bastante, portanto, nos alimentos de origem
animal como a carne, fonte de proteína de bom valor biológico. Um dos
aminoácidos típicos da carne, e por esta razão conhecido como carnitina,
desempenha papel central no metabolismo, facilitando a produção de
energia a partir das reservas de gordura.
Estando preparada
para o consumo, 100g de carne bovina fornecem cerca de 50% das
necessidades de proteína de uma pessoa adulta de 60 kg.
Minerais
A carne bovina
contém boas doses de diversos minerais, como cobre, selênio, fósforo,
potássio e magnésio. Contudo, chama a atenção o fornecimento de zinco e
ferro, de grande importância nutricional, e cujos valores da dieta estão
associados ao volume de consumo de carne.
Zinco
Este mineral
contribui para o bom funcionamento de diversos sistemas, com destaque
para o sistema imunológico e, portanto, para a garantia de mecanismos de
resistência a infecções. Além disto, tem papel central sobre a divisão
celular e o crescimento, estando envolvido na produção de proteínas para
a construção de tecidos e órgãos. Nosso organismo contém cerca de 2,5g
de zinco, amplamente distribuídos, mas cerca de 60% está nos músculos.
Embora não existam órgãos para estoque, o zinco está particularmente
concentrado na próstata e no sêmen, razão pela qual homens precisam de
33% mais deste mineral do que mulheres (recomenda-se 9,5 mg/dia para
homens e 7,0mg/dia para mulheres). Sua carência causa perda de
sensibilidade gustativa, diminuição da resistência a infecções, entre
outros sintomas. Em crianças, deficiências importantes de zinco podem
determinar atraso no crescimento, no desenvolvimento intelectual e na
maturação sexual.
Carnes são excelentes fontes de zinco: 100g de carne bovina crua contém
cerca de 3,5mg, ou seja, 1/3 das necessidades diárias de homens e cerca
de 50% das necessidades de mulheres.
Ferro
|
|
 |
|
|
O ferro é um
nutriente essencial para composição da hemoglobina, que contém 66% dos
cerca de 3,5 a 4,5 g de ferro encontrado em um organismo adulto. A
hemoglobina transporta oxigênio para todas as células e remove o gás
carbônico produzido pela respiração celular, e quando está diminuída por
carência de ferro na dieta, promove o aparecimento de anemia, que é a
mais importante deficiência nutricional do mundo, acometendo entre 10 e
66% da população, dependendo da região do globo e do estrato social.
Entre os sintomas desta doença, estão a palidez, o cansaço, dificuldades
respiratórias, dores de cabeça, baixa resistência a doenças e perda de
apetite. Em crianças, a deficiência de ferro compromete a capacidade de
aprendizado, com conseqüências negativas para a capacitação profissional
na idade adulta. Cerca de 40% do ferro contido nas carnes está na forma
conhecida como ferro-heme, sendo o restante como ferro não-heme. Esta é
também a forma do ferro encontrado nos alimentos de origem vegetal. O
ferro-heme é mais eficientemente absorvido do que o ferro não-heme: do
total de consumo, cerca de 30% é aproveitado, sendo que a forma não heme
apresenta uma absorção próxima a 5%. A combinação de alimentos fontes de
vitamina C contribui para melhorar a absorção do ferro não-heme, que
pode chegar a 15%, contudo em nada interfere sobre o aproveitamento do
ferro-heme. Para um adulto do sexo masculino, a dieta deve fornecer
cerca de 8 mg de ferro por dia, e 100 g de carne bovina contém cerca de
20% deste total. A recomendação de ferro para mulheres é maior, em
função das perdas determinadas pelo ciclo menstrual.
Vitaminas
| |
|

|
|
|
Carne bovina é boa
fonte de vitaminas do complexo B. A riboflavina, também conhecida como
Vitamina B2, participa de reações relacionadas ao metabolismo de
energia. A niacina está envolvida com a produção de diversos compostos
necessários para o organismo. A vitamina B12, presente apenas em
alimentos de origem animal, participa da conversão de nutrientes em
energia, mas destaca-se pela sua importância para a síntese das células
vermelhas do sangue e manutenção do Sistema Nervoso Central.
A tabela abaixo traz
as quantidades recomendadas por dia para cada um destes componentes,
sempre tendo como referência um homem adulto, e o percentual fornecido
por 100 g de carne bovina.
|
Nutriente |
Recomendação diária
para
um homem adulto |
Percentual fornecido por 100g de carne bovina crua |
|
Riboflavina mg |
1.3 |
20 |
|
Niacina
mg |
16 |
33
|
|
Vit.
B12 mg |
2.4 |
80 |
Características
de preparo
|
|
 |
|
|
Evidências apontam
para o fato de que tratamentos muito severos com calor, como a fritura e
o assamento excessivo, que chega a deixar os cortes de carne com aspecto
excessivamente tostado, estão associados à produção de compostos como
aminas heterocíclicas - AH, e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos
HAP. As AH se mostraram potencialmente mutagênicas em animais, e
carcinogênicas em camundongos, ratos e primatas, especialmente em
fígado, mas também pele, pulmão, cólon e mama. Os HAP, como o
benzopireno, entre outros, são carcinogênicos e mutagênicos, e
acredita-se que contribuem fortemente para alguns tipos de câncer em
humanos. Já os compostos N-nitrosos - CN, podem ser produzidos
endogenamente a partir de excesso de proteínas da dieta, e representam
comprovada causa de câncer em mais de 30 espécies animais, inclusive no
homem. Todos estes compostos podem ser originados de outros alimentos da
dieta, e mesmo de condições ambientais desfavoráveis, como é o caso dos
HAPs, presentes na fumaça de diversas origens. Alguns vegetais, como a
alface e o espinafre, são fontes importantes de nitratos, que podem
originar CNs no organismo. As condições ideais de preparo devem,
portanto, usar o calor moderadamente. A cocção úmida (em água, ou sob
pressão) é a mais segura. O uso de calor seco (grelhar, assar, e
especialmente, fritar) deve evitar a "queima" do alimento, ou de partes
do corte.
Consumo
recomendado
É possível afirmar que o consumo moderado de carne
bovina, adequadamente preparada, é uma medida não apenas segura, mas
recomendável para a dieta de crianças, adultos e idosos. Estudos
comprovam, até mesmo, que podem ser de algum benefício para a prevenção de
doenças crônicas típicas de idosos, como o mal de Alzheimer.
Mudanças no padrão
de consumo de alimentos que incluem o consumo de pequena ou nenhuma
quantidade de carne, podem trazer implicações importantes para o estado
nutricional das pessoas, especialmente no que se refere ao fornecimento de
proteína e minerais como o ferro, e devem ser evitados.
Fontes:
-Semíramis
Martins Álvares Domene
Profa. Titular - Fac. de Nutrição - PUC-Campinas
Membro do Comitê Técnico do SIC
-SIC -
Serviço de Informação da Carne
- Embrapa
|
|