BACALHAU
O
Rei dos Mares do Norte
Virgínia Brandão
Um peixe ou um processo de cura?
Alguns autores afirmam que foi na Espanha, no começo do século
16, que surgiu o termo "bacalao" para batizar o peixe
cientificamente designado de Gadus morhua L. Foi,
entretanto, como "bacalhau" que o espécime, seco e salgado
claro, acabou ganhando o mundo a bordo das caravelas portuguesas
que desbravaram os oceanos daqueles tempos.
E, por séculos, foi assim: bacalhau era o Gadus morhua salgado e
seco e ponto final. Da mesma forma, por milênios, esse peixe
majestoso, que muitas lendas apresentam como "rei dos mares",
abundou nas águas geladas do Atlântico Norte e parecia que seus
enormes cardumes jamais teriam fim. Existia em tal quantidade,
que se tornou um alimento popular, barato e acessível a uma
parcela da população que, raramente, podia comprar peixe fresco.
Além disso, com um sabor muito melhor que qualquer outro peixe
salgado.
Mas o tempo passou e muita coisa mudou. A
pesca indiscriminada acabou por provocar o que parecia
impossível - a redução dramática dos estoques do Gadus morhua
nos oceanos, a ponto de hoje ele constar da "Lista
Vermelha" de animais ameaçados de extinção como "vulnerável", e
sua população ter chegado aos níveis quantitativos mais baixos
da História.
Com isso, o preço do velho e bom bacalhau foi aumentando muito
ao longo do tempo, restringindo o consumo popular. Vários outros
peixes, parecidos mas muito diferentes, gastronomicamente
inferiores, também começaram a ser chamados de bacalhau por
serem vendidos salgados e curados. Assim, embora continue, por
direito, a pertencer ao Gadus morhua, hoje o nome "bacalhau" é
muito mais associado do processo de beneficiamento do que ao
peixe em si.
Seja como for, mesmo com tantos "fakes", já não em tanta
quantidade, nem mesmo tão grandes como costumavam ser já que a
pesca sistemática não permite que cresçam tanto, o legítimo
bacalhau Gadus Morhua continua uma iguaria nobre, amada e
desejada nos mais de 200 países que o importam da Noruega, seu
mais tradicional e maior produtor.
Produto de terroir
O termo "produto de terroir", de uma forma geral, é bem familiar
aos amantes da boa mesa - refere-se a produtos que são o
que são por um conjunto de fatores muito específicos de sua
região de origem, como clima, solo, localização, cultura e
tecnologia - cultura e tecnologia, nesse caso, relacionadas,
sobretudo, aos hábitos, tradições e saberes do homem que ali
vive. O conceito nos foi passado pelos franceses que, mais do
que ninguém, souberam e sabem valorizar as peculiaridades do seu
território e de seus frutos, principalmente no que tange à
gastronomia.
Como "produto de terroir", é-nos familiar pensar em vinho,
champagne (esse, então, é um exemplo clássico), destilados, no
foie gras, nas trufas, queijos. Mas, alguma vez você pensou no
bacalhau como um "produto de terroir"? Provavelmente, não. Mas
é. Um produto muito específico, cuja existência resulta de
circunstâncias, também, muito específicas (e muito
interessantes) como veremos a seguir.
Por isso, sempre que se vir diante de uma bela posta de
bacalhau, tenha em mente estar, decididamente, frente a uma
iguaria muito, mas muito especial, uma jóia gastronômica com que
nos presenteou a natureza e a inventividade humana.