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DIA DOS NAMORADOS
Um amor que fala pelo
paladar
segundo receita do
século 19,
em fragmento do
livro “Bel-Ami”, de Guy de Maupassant (1850-1893)
Jezebel Salem
Só mesmo os franceses para combinar tão bem “amor” e “paladar”.
Aliás, esse sentido, o paladar, quando praticado em conjunto, ou seja,
socializado e à mesa, com os amigos, entre os amantes, os familiares, é um
dos prazeres máximos a que humanidade poderia aspirar! Parecido, ou, melhor
ainda, do que ir a uma ópera, ou a um moderno e contemporâneo espetáculo de
música, em comunhão com os outros, com o grupo todo, para apreciar os
efeitos e ‘sabores’ sonoros de uma obra de arte musical.
No caso da mesa a comunhão é ainda mais íntima – assim permitindo a
verdadeira, a melhor e mais completa comunicação entre os participantes: uma
taça de vinho, um gole atento, seguido de outro... E um sabor picante ali,
outro aqui... A textura aveludada na terrine de entrada, a manteiga
deslizando pelo pão, os perfumes das ervas que sobem do prato, enfim, todas
essas pontuações mágicas na ponta da língua, enquanto a mesma (a língua), e
também os olhares, e os sorrisos, os gestos, comunicam frases, palavras que
tentam transmitir um pouco da nossas almas... (enquanto nossos corpos são
guarnecidos e acalentados pela festa que é posta à a mesa).
E deve ser pelo mesmo princípio que os restaurantes ficam absolutamente
tomados nessa data nacional, o “Dia dos Namorados”: mesmo que em duplas, que
seja somente o casal, ali está a essência da “comunicação à mesa”, esse
ritual e prazer incomparável, presente na arte das palavras, do diálogo, da
boa e insubstituível conversa, do colóquio, tudo pontuado e enriquecido
pelos rituais da boa mesa.
Mas, agora, experimentem um bocadinho desse argumento num dos grandes textos
do maior contista da França do século 19 (aliás, tempos do auge da ‘civilidade’).
E, talvez, assim inspirados, não poupemos esforços no sentido de repetir e
perpetuar um momento desses...
Amor, Champagne e Ostras
Guy de Maupassant
Sentaram-se a mesa e, quando o garçom entregou a carta de vinhos a
Forestier, Madame de Marelle exclamou:
- Dê aos cavalheiros o que pedirem, mas para nós traga champagne gelado,
o melhor champagne doce.
Trouxeram as ostras, diminutas e arredondadas, como orelhinhas fechadas
em conchas, dissolvendo-se entre a língua e o céu da boca, como bombons
salgados. Depois da sopa foi servida uma truta, tão rosada quanto uma
garotinha, e os convivas começaram a conversar.
Primeiro comentaram o escândalo do momento, e então começaram a falar de
amor. Sem aceitá-lo como eterno, Duroy considerava-o duradouro, criando
laços, amizade afetuosa, segurança. A união dos sentidos apenas selava a
união dos corações. Mas irritavam-no os ciúmes excessivos, as cenas
melodramáticas e os dissabores que sempre acompanham os rompimentos.
Quando parou de falar, Madame de Merelle replicou:
_ Sim, é só o que há de bom na vida, e muitas vezes o estragamos com
absurda insensatez.
Madame Forestier, que brincava com a faca, acrescentou:
_ Sim, sim. O amor é agradável.
E parecia estar levando seu devaneio mais longe, pensando coisas que não
ousava expressar.
Como o prato seguinte demorava a chegar, tomava de quando em quando um
gole de champagne e beliscava pedacinhos de pão. E devagar a idéia do amor
intoxicava-lhes a alma, enquanto, descendo gota a gota pela garganta, o
vinho brilhante esquentava-lhes o sangue e perturbava-lhes a mente.
O garçom trouxe costelas de carneiro, tenras e apetitosas, sobre uma
grossa camada de aspargos.
_Ah! isto é muito bom! _ disse Forestier. E comeram devagar,apreciando o
prato delicioso e os legumes macios como creme.
Duruoy recomeçou a falar, argumentando com convicção:
_ De minha parte, quando amo uma mulher, tudo o mais desaparece.
Madame Forestier murmurou em tom de voz indiferente:
_ Não há felicidade que se compare a do primeiro aperto de mão, quando um
pergunta: “Você me ama?” e o outro responde: “Sim”.
Texto Bel-Ami extraído de:
Linguagem do Amor
Sheila Pickles
Ed. Melhoramentos
1989 - São Paulo
Se você quiser criar um pouco desse clima no seu Dia dos
Namorados, sugiro uma receita clássica e deliciosa de ostra,
de um grande especialista nesse molusco, o chef Alain Uzan.
Clique aqui, e
conheça a receitas das Ostras à Moda de Nantes. Simplesmente,
deliciosas!!!
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Jezebel Salem
é jornalista há 24 anos e sua senda profissional, de algum modo,
por curiosidade, por gosto e por apetite mesmo, sempre
bisbilhotou, passou e acabou ficando pela cozinha..
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jezebela@terra.com.br
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